Por: Fala, Zanfra!
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A morte se anuncia ao vivo

01/03/2018

O alerta soou no celular avisando que um amigo estava fazendo uma transmissão ao vivo no Facebook, mas eu me comportei como me comporto diante de tantas outras transmissões ao vivo, de quem quer que seja: ignorei.

Só alguns minutos mais tarde, a atenção que não dispensei ao receber o alerta foi despertada por uma postagem garrafal no próprio Face, em fundo preto, com letras brancas: “Por que fizeste isso, meu irmão?”. Abaixo dessa postagem, alguns comentários perguntavam onde estava aquele amigo, qual seu telefone e outras exclamações de denotavam inútil urgência.

E então procurei a transmissão à qual não dera a mínima: começava com imagens trêmulas dos pedais do carro, depois do painel, tomadas pela lente posterior do celular. Quando foi acionada a câmera frontal, o que se viu foi um rosto vincado, sombrio, contraído pela dor.

Ele pediu desculpas aos filhos, aos amigos. Repetiu por duas vezes que a mulher não tinha culpa, mas disse ter descoberto que ela estava “tendo um caso” com alguém que ele identificou pelo nome. Ao final, a sentença: “E eu não vou suportar isso...”

Fiquei sabendo dos detalhes depois, pelo jornal: esse amigo tinha saltado do viaduto que liga os bairros Estreito e Coqueiros e passa por cima da via Expressa. Na queda sobre a BR-282, foi colhido em cheio por um caminhão e morreu na hora. Era pouca coisa mais novo que eu.

Mais do que o choque da morte, o que nos arrasa é não ter estado por perto para impedi-lo de chegar a esse ponto, ou, em último caso, para impedi-lo de saltar. Mas acho que nem a superaudição do Super-Homem ou a velocidade do Flash poderiam salvar alguém que não estava pedindo socorro, mas comunicando sua decisão de morrer. Não foi como as pessoas que ligam para o CVV tentando ouvir palavras de alento que a demovam da ideia do suicídio.

E o que choca também é que uma rede social usada normalmente para festas, para fotos de cachorrinhos e paisagens, para relatos de viagens e trocas de impropérios políticos possa servir também para o amargo adeus de um amigo. Talvez tenha sido justamente essa sua intenção: se o suicídio é a maior agressão à Humanidade que se perpetra contra si mesmo, por que não levar consigo o coletivo da dor dos amigos?

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