Por: Fala, Zanfra!
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Antropomorfismo

16/12/2018

Algumas pessoas chamam a isso paranoia; outras, antropomorfismo.

Fico com a segunda hipótese.

Porque paranoico é a mãe! Achar que os objetos inanimados assumem não a forma, mas o comportamento de seres humanos para nos atazanar não é paranoia! É conhecer a realidade que nos cerca, seja ela viva ou não!

Talvez a manifestação mais conhecida do antropomorfismo seja a caneca com leite no fogo que não ferve enquanto você estiver olhando – e, em contrapartida, se esparrama pelo fogão assim que você deu uma ligeira desviada d’olhos para ver se o açúcar está na mesa. Podem o leite, a caneca e fogo, juntos ou separadamente, decidirem o momento da fervura? E tomarem essa decisão no exato momento em que você não tem como confrontá-los? 

Como não tomo leite – e portanto não o fervo – tenho como exemplo pessoal mais marcante do antropomorfismo a chaleira sonora em que esquento a água para fazer o café. Se estou próximo ao fogão, ela começa a assobiar bem de mansinho, bem de leve, e vai subindo gradativamente até transformar-se num silvo contínuo e melódico, com menos de 5 decibéis. Mas se estou lá fora, por exemplo, ah, meu amigo, ela já começa num apito histérico e esganiçado, capaz de fazer os vizinhos chamarem a polícia!

Ela até pode ter boas intenções. Tipo achar que eu, por estar longe, posso não ouvir seu assobio melódico. Mas, pô, não sou surdo! Não precisa gritar com tanta urgência para avisar que a água está quente. Mesmo porque é só água quente. Ainda se fosse um vazamento crítico numa usina nuclear...

Outra maldita antropomórfica é a maçaneta da porta do meu quarto. Ela deve algum problema ancestral com meu cotovelo direito, porque vira e mexe os dois acabam se enfrentando, obviamente com prejuízo para o cotovelo. Sei que preciso sentar para conversar com os dois e resolver as diferenças, mas o máximo que consigo em termos de usar as palavras é berrar um palavrão a cada embate entre ambos.

O que me consola é a certeza de que não ou a única vítima do antropomorfismo. Muitos já o reconhecem. Caso os queridos leitores ainda não tenham observado o fenômeno, basta prestar atenção aos detalhes: a colher que cai (ou se joga) de sua mão; o pé da mesa que desliza lentamente em direção ao dedinho de seu pé; o saleiro que combina com o açucareiro de trocar momentaneamente de lugar; o parafuso minúsculo que se esconde até o momento em que você se cansa e desiste de procurá-lo; a tampa da garrafa de guaraná que pula de sua mão e corre a se esconder debaixo da geladeira...

Os exemplos são muitos, basta querer enxergar. O problema, além do agastamento natural que isso causa, é que eles parecem estar gostando disso. Não demora e seremos vítimas indefesas do antropomorfismo. Aguentar um governante tosco, a gente até aguenta; mas receber ordens de uma tampinha de garrafa...

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