Por: Fala, Zanfra!
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Apelidos

08/04/2019

Minha amiga Camila postou no Instagram uma foto com sua gata e escreveu “dona Chacrona debochada...” Estranhei e perguntei: “O nome dela não era Craco?” E ela respondeu: “Craco é o apelido.”

Fiquei pensando: por que a gente pode batizar um animal de estimação com qualquer nome – não precisa dar bola para a burocracia do registro civil – bota um nome por si só estranho e depois emenda um apelido em cima, para simplificar? Não era mais fácil batizá-la como Craco desde o início?

Ia falar da incoerência das pessoas nesses casos, mas me lembrei de que o macaco não pode sentar no próprio rabo para comentar do rabo alheio: aqui mesmo em casa, há algum tempo, minha filha mais nova batizou um husky siberiano como Arthur, mas o chamava de Tchutchuco. Quer dizer, tratar por apelidos faz parte da natureza humana.

A escritora Doris Lessing disse uma vez que os apelidos são uma maneira poderosa de colocar as pessoas nos seus devidos lugares, mas acho que isso é pensamento de quem costumava praticar o ‘bullying’. Na verdade, os apelidos servem tanto para tratar as pessoas – ou animais – com mais carinho e intimidade, como também para a prática do ‘bullying’. Depende da intenção.

Alguns nomes trazem implícito o apelido. Aliás, nem é apelido: passa a ser consequência! Todo José é Zé. Todo Francisco é Chico. Não há como escapar, e aí não se trata de intimidade ou carinho, mas de tradição.

Li uma vez numa coluna de necrologia que o falecido se chamava José e era, segundo o texto, “tratado carinhosamente como Zé”. Ora, ninguém é tratado carinhosamente como Zé! Zé é consequência de José! Ele podia até ser chamado carinhosamente de Zequinha, mas não de Zé! Além disso, o Zé pode acompanhar outros apelidos nada carinhosos, como Zé Mané ou Zé Ruela! Percebem a diferença? É a tal de intenção...

Vai vendo: aos 15 anos, eu beirava o metro e meio de altura e um professor de trigonometria me chamava carinhosamente de Feto; trabalhei numa revista em que um fotógrafo tinha mau hálito e era chamado carinhosamente de Boca de Latrina; quando adolescente, tinha uma vizinha de rosto redondo e adivinhem se ela não era chamada carinhosamente de Cara de Bolacha Maria?

Tudo é encarado do ponto de vista de quem aplica o apelido!

E há apelidos também – ou codinomes, ou vulgos – que não foram criados para tratar carinhosamente, ou para praticar o ‘bullying’: servem para dificultar a identificação, para tornar certos indivíduos conhecidos apenas em círculos restritos. Como aquela lista da Odebrecht que nominava os destinatários de suas propinas, e tinha exemplares como Viagra (Jarbas Vasconcelos), Barbie (Marta Suplicy), Feia (Lídice da Mata), Maçaranduba (Ivo Cassol), Grisalho (Arlindo Chinaglia) e Botafogo (Rodrigo Maia).

Como eu disse, o uso dos apelidos depende da intenção. E algumas intenções chegam a ser rentáveis...

 

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