Por: Fala, Zanfra!
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As coisas que não são mais as coisas

20/04/2018

Sentindo dor no joelho esquerdo, procurei um ortopedista. Enquanto a atendente preenchia compenetrada minha ficha de entrada, com uma ponta da língua sugestivamente escapando entre os lábios, comentei que talvez precisasse trocar a rótula...

“Ih, danou-se!”, ela interrompeu seu trabalho e exclamou com um charmoso sotaque levemente nordestino. “Isso nem fabrica mais! Agora sai da linha de montagem com nome de patela! Se o senhor precisar de uma rótula em bom estado, vai ter de procurar num desmanche!”

Pois me imaginei percorrendo a região dos desmanches, com peças nem sempre de origem lícita, e perguntando de porta em porta se eles têm para vender uma rótula em bom estado para um joelho esquerdo modelo 1956 standard. “Até tem! Mas em bom estado vai ser meio difícil! É um modelo muito antigo! Talvez passando a peça numa retífica ainda dê para rodar mais uns cinco ou seis anos... Mas não garanto!”

É claro que tudo isso aí em cima é brincadeira! Mas meus estimados leitores já perceberam que muita coisa no corpo humano não é mais o que era! Simplesmente trocaram de nome. E vão te deixar com cara de besta se você desconhecer a nova nomenclatura. É certo que essas mudanças não são recentes, mas alguém – principalmente os mais velhos, como eu, que ainda têm rótula – já conseguiu conhecer e guardar o nome de todos?

Por exemplo, experimente chegar numa dessas farmácias ditas populares e diga que está com dor na omoplata, para ver a cara com que vão te olhar! “Omoquê?” Capaz de confundirem com homeopatia. Ou com alguma coisa ligada à homofobia, e não dá trinta segundos e estão ligando para o cento e noventa!

“Ah, é escápula que chama!”, o farmacêutico diplomado e que se formou há muitos anos surge em seu socorro. E o leitor até vai sentir que a dor aumenta, porque escápula parece o nome de alguma coisa que não está bem presa ao corpo e que fica passeando para lá e para cá, coisa que as omoplatas não faziam!

E as coisas vão mais longe! No meu tempo, por exemplo, as crianças costumavam operar as amídalas; hoje, as coitadinhas têm de operar a tonsila palatina. Complicou! Operar as amídalas era uma cirurgia simplíssima, que cicatrizava à base de sorvete. Já a tonsila palatina... provavelmente deve ser acompanhada por tomografia computadorizada e finalizada com uma carga pesada de analgésicos e anti-inflamatórios!

O ser humano tem mania de complicar: o futebolzinho de rua ganhou estratégias científicas que extrapolam a simples prática de chutar a bola, o negro virou afrodescendente, o surdo virou deficiente auditivo e o osso perônio virou fíbula, que nada mais é, ou era, do que um alfinete que fechava a toga dos antigos romanos.

(Um acidente que provoque fratura da fíbula – um tombo, por exemplo – pode muito bem ter também consequências desastrosas no rosto da vítima e provocar danos ao zigoma, mesmo que esse seu novo nome pareça dar-lhe resistência maior do que tinha a antiga maçã do rosto.)

Os idoso, como eu, vão sentindo que seu corpo os torna mais ultrapassados do que são efetivamente. Saber que aquela bolinha que sobe e desce na garganta quando você engole não é mais o pomo de adão, mas a proeminência laríngea, mostra que suas peças originais de fábrica são artigos de museu e que é melhor não precisar trocá-las por peças novas – que, como acontece com todos os produtos mais novos, são muito menos resistentes.

Melhor continuar levando a vida com sua rótula, suas omoplatas e seu pomo de adão até que o coração – se ele ainda se chamar assim – pare de bater.

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