Por: Fala, Zanfra!
Visualizações: 2361

Assim na terra como no céu

20/05/2019

Se o estimado leitor já teve a ousadia de comentar, perto de alguém, que tem um certo temor de entrar num avião e sentir-se tranquilo olhando a paisagem nas nuvens a doze mil pés de altura, certamente deve ter ouvido de volta – tão infalível como a piadinha do pavê – que uma viagem aérea é muito mais segura que uma terrestre.

Se considerarmos os números de mortos em acidentes nas estradas brasileiras e os que foram vitimados em quedas de avião, a afirmação está certa. Ou, pelo menos, empresta credibilidade. Mas a verdade não é absoluta e peca pela visão unilateral. Não é que a viagem aérea seja mais segura: pegar uma estrada brasileira é que é uma aventura, que nem sempre terá um final feliz!

A começar pelos números que compõem os dois tipos de transporte: segundo o Denatran, a frota nacional ultrapassava 101 milhões de veículos em fevereiro, enquanto a de aviões pouco passa de 22 mil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Aviação. Isso significa, por baixo, que há 4.590 mais oportunidades de acidentes terrestres do que aéreos.

Isso explica em parte o termo comparativo, mas não é o mais importante. O que conta na segurança dos voos é que, para botar na pista um Boeing 737, por exemplo, não basta ao piloto ir até o Detran, encarar uma provinha fuleira, mostrar que consegue fazer baliza e sair numa subida sem deixar o carro voltar, pegar sua carteira e assumir o comando do jato.

Ao contrário, para assumir o comando de um dos 101 milhões de veículos em circulação no território nacional, basta ir até o Detran, fazer uma provinha fuleira, mostrar que consegue fazer baliza e sair numa subida sem deixar o carro voltar, pegar sua carteira e assumir o volante. Se ao piloto do Boeing sobram preparação, atenção, controle, perícia e informações computadorizadas, aos portadores de CNH sobra apenas a presunção de que sabe dirigir, e que por isso pode abusar da velocidade, falar ao celular, ultrapassar na faixa contínua etc.

Resultado: se, em 2018, 556 pessoas morreram em acidentes aéreos no mundo inteiro, o número de mortos em acidentes terrestres no Brasil deve ser multiplicado por 84 – foram 47 mil. É claro que nem se compara às 4.590 vezes mais possibilidades de acidentes que eu citei num parágrafo lá em cima, mas os números ainda assim são alarmantes.

E, claro, poderiam ser menos dramáticos. Para isso, bastariam duas circunstâncias básicas: que não fosse tão fácil sair do Detran com uma carteira de habilitação e que os motoristas habilitados assumissem o controle de seus veículos como se estivessem levando na ponta dos dedos um Boeing 737. Nem é tão difícil...

Mais posts do autor
Imprimir
Enviar para um amigo
Assinar

Envie esta notícia para um amigo



Comente
este post

Ao efetuar um comentário, o seu IP (Internet Protocol) será gravado e poderá ser utilizado para identificar o usuário que inseriu o mesmo.
Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor do comentário e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.


Outros comentários

noresults

Caso o comentário acima for abusivo ou seu nome for utilizado indevidamente, denuncie.

Opiniões expressas nos blogs e colunas por meio de suas publicações são de exclusiva responsabilidade do autor, não passam por qualquer controle de edição, editoração ou conteúdo e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.

Blogueiros & Colunistas

Voltar