Por: Fala, Zanfra!
Visualizações: 4152

Aventura carioca

24/06/2019

Até o final dos anos 70, a Editora Abril tinha uma revista – Geração Pop, ou Pop para os íntimos, que chegou a 82 números – dedicada ao público adolescente. Não era uma publicação para menininhas, como a Capricho, mas uma revista da era pré-internet que trazia aos jovens a informação geral da chamada cultura pop.

A Pop “influenciou uma geração não só de jovens, mas de artistas, jornalistas, editores, estilistas e outros setores envolvidos com a arte e a cultura; essa revista foi um marco editorial do período, pois não houve no Brasil uma publicação que retratasse tão bem e de maneira diversificada as tendências de uma década riquíssima culturalmente falando”, segundo definiu o blog Apólogo 11.

Pois bem: recém-saído da puberdade, fã da revista e já trabalhando como jornalista, quis unir o útil ao agradável. Nas primeiras férias como repórter da Folha, em 1978, resolvi passar uns três dias no Rio de Janeiro e trazer matérias para a revista. Pensei numa entrevista com Chico Buarque e com o pessoal do programa Ciranda, Cirandinha, que fazia sucesso na época, retratando quatro jovens – Lucélia Santos, Jorge Fernando, Fábio Júnior e Denise Bandeira – que moravam juntos.

Procurei o editor da Pop – o brilhante Waldir Zweitsch – e ofereci as pautas, prontamente aceitas. Para o jovem repórter aqui, não haveria problemas: como tinha o telefone da casa do Chico, era só ligar e marcar; para os atores do Ciranda, Cirandinha, bastava procurar a Globo. Em três dias, completaria a missão...

Só que as coisas não aconteceram como o planejado, e fui obrigado a estender minha permanência na cidade para uma semana. Mesmo hospedado num hotelzinho fuleiro próximo à praça Tiradentes, o dinheiro era curtíssimo (era para três dias, lembram?) e, em certos dias, eu era obrigado a escolher entre almoçar ou jantar. 

Resumindo: o telefone do Chico estava com defeito e só consegui encontrar com ele na porta do Teatro Ginástico, onde estava sendo levada sua peça Ópera do Malandro. Coincidentemente, ele estava gravando um especial para a Band e logicamente não encontraria tempo para um obscuro repórter paulista. Mesmo eu indo todos os dias à porta do teatro para abordar a então mulher dele, Marieta Severo, a pauta furou.

Quanto ao Ciranda, Cirandinha, como pôde passar por minha cabeça que era fácil reunir quatro atores para uma entrevista conjunta? Só se fosse interesse da emissora promover o programa para convocar os protagonistas e reuni-los para uma entrevista! Impossível conseguir isso sozinho! Aliás, nem na Globo eu consegui entrar: por ser jornalista, despacharam-me para a sala de imprensa que ficava do outro lado da rua e eu que me virasse por lá!

Por sorte, uma coleguinha carioca ficou com pena de mim e me deu o que seria o prêmio de consolação de minha tresloucada e infeliz aventura: o telefone da Lucélia Santos, que morava numa cobertura da rua Almirante Saddock de Sá, próximo à lagoa Rodrigo de Freitas.

Muito gentil – embora o então marido dela, Johnny Neshling, parecesse querer me ver pelas costas – Lucélia me deu uma longa entrevista, posou para fotos e me garantiu duas páginas na Pop. Para não dizer que voltei com as mãos abanando, portanto, tive a entrevista com ela, o dinheiro para uma coxinha durante a viagem e para um ônibus em São Paulo.

Só fui embora depois de uma última tentativa com Chico, já com a mala na recepção do hotel (não tinha mais dinheiro para uma diária). Ao chegar em São Paulo, soube que meu pai tinha ligado para a polícia no Rio, para saber se eu não estava preso, ou morto, ou internado...

Porque ninguém conseguiria sobreviver no Rio de Janeiro durante uma semana com o dinheiro que eu carregava no bolso!

Mais posts do autor
Imprimir
Enviar para um amigo
Assinar

Envie esta notícia para um amigo



Comente
este post

Ao efetuar um comentário, o seu IP (Internet Protocol) será gravado e poderá ser utilizado para identificar o usuário que inseriu o mesmo.
Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor do comentário e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.


Outros comentários

noresults

Caso o comentário acima for abusivo ou seu nome for utilizado indevidamente, denuncie.

Opiniões expressas nos blogs e colunas por meio de suas publicações são de exclusiva responsabilidade do autor, não passam por qualquer controle de edição, editoração ou conteúdo e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.

Blogueiros & Colunistas

Voltar