Por: Cronicidade
Visualizações: 1448

Beco sem saída

03/09/2013

Cansei de andar de carro. Estou farto do trânsito (quem não está?). Não quero ser mais um solista nessa orquestra desafinada. Vou investir na estreita liberdade que ainda me toca, mesmo que o preço seja enfrentar a precariedade do transporte coletivo de Florianópolis. Quase não lembrava mais que tenho duas pernas em pleno funcionamento. A gente se habitua a dirigir de uma porta a outra, a subir e descer escadas rolantes, a se enfiar em elevadores, e acaba refém das máquinas.


Não quero mais dirigir, é isso. Vou investir na contemplação da paisagem, no tempo ocioso de deslocamento para me deleitar com algum livro ou com boa música no meu velho MP3. No comando de um motor, você sabe, o foco é chegar ao destino o mais rápido possível. Não há tempo para relaxar ou perceber o que acontece à sua volta, exceto as manobras dos milhares de motoristas disputando na marra um naco de asfalto.


Na sexta-feira deixei o carro em casa. Peguei um ônibus executivo (o amarelinho) e deslizei até o Centro, entre poucas paradas. Percebi coisas que antes passavam batidas: a entrada secreta de uma pousada na Lagoa, a ampliação do prédio da Fiesc, o treinamento de funcionários no pátio da Celesc, o movimento das árvores, os semblantes dos motoristas, o conselho grafitado num poste – Queime gordura, não óleo. Desci no primeiro ponto da Bocaiúva e subi a Mauro Ramos usando o motor das minhas próprias pernas. É uma sensação boa, pode acreditar.


Na volta do trabalho, já tinha passado o último amarelinho. Tudo bem, vamos de ônibus comum. Fiquei esperando em pé num ponto da Beira-Mar Norte, açoitado pelo vento frio, observando com tristeza a tsunami de faróis escoando lentamente no asfalto, o barulho dos motores se impondo sobre qualquer outro som. Uma enorme manada de bichos com rodas no lugar de patas.


Depois de meia hora, apareceu o latão nº 320. Lotado. Hora de botar as pernas e braços para funcionar. É imprescindível o fone de ouvido, que eu esqueci nesse dia. Fui forçado a escutar os diálogos sobre as ninharias do cotidiano, as fofocas de final de expediente, a discussão entre um cobrador e um casal de “espertos” que quis descer pela porta da frente sem pagar, as reclamações do cobrador contra a “esperteza” de alguns passageiros, seguidas de mais uma discussão entre o mesmo cobrador e outro passageiro que não aguentava mais as lamúrias diárias do profissional. “Não está satisfeito com o emprego, pede pra sair”, gritou rispidamente, lá do fundão do coletivo, o usuário gaúcho. E o cobrador nativo arrumou mais um motivo para reclamar.


Durante toda a viagem do Centro à Lagoa, também tive que presenciar uma lourinha de uns 18 anos sentada cínica e confortavelmente no seu banco, fingindo não ver uma senhora carregada de sacolas em pé ao seu lado. Enfim, segui aos trancos e barrancos até minha casa, meus olhos e ouvidos recolhendo resignados os farelos da humanidade.


Quanto a isso não vejo problema, faz parte do pacote. Cheguei são e salvo em casa. Revigorado, sentindo o fluxo do sangue nas veias. Só preciso encaixar meus horários com os horários do amarelinho. É caro, mas compensa. Não pretendo olhar de novo para o rosto rancoroso daquele cobrador, encarcerado no seu nicho de ferro.


Também preciso vender meu carro. Coloquei um anúncio no vidro há um mês, mas ninguém ligou. É muito velho e as pessoas querem carro novo, capturadas pelo incentivo governamental ao consumismo selvagem, não importa os sacrifícios que tenham que fazer – as dezenas de parcelas do financiamento, a gasolina cara, a guerra surda nas ruas.


Para mim deu. Agora quero assistir a tudo isso de camarote. E nunca mais esqueço meu MP3.

Mais posts do autor
Imprimir
Enviar para um amigo
Assinar

Envie esta notícia para um amigo



Comente
este post

Ao efetuar um comentário, o seu IP (Internet Protocol) será gravado e poderá ser utilizado para identificar o usuário que inseriu o mesmo.
Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor do comentário e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.


Outros comentários

noresults

Caso o comentário acima for abusivo ou seu nome for utilizado indevidamente, denuncie.

O Blog

Cronicidade
Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

Opiniões expressas nos blogs e colunas por meio de suas publicações são de exclusiva responsabilidade do autor, não passam por qualquer controle de edição, editoração ou conteúdo e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais do Tudo Sobre Floripa.

Blogueiros & Colunistas

Voltar