Por: Fala, Zanfra!
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Chiniqueiro!

11/05/2018

O considerado leitor já brincou de ‘pé-na-lata’? O nome da brincadeira pode variar um pouco, mas a lata não muda. Trata-se do centro das atenções durante o jogo todo. É a lata – no meu tempo, uma rotunda lata de óleo de soja – que condena, é a lata que salva!

O pé-na-lata – praticado especialmente pelos integrantes da ‘velha infância’, as crianças que hoje ultrapassam os 50 anos – consistia em dois polos antagônicos: a molecada que corria a se esconder e o pobre coitado que deveria localizar a molecada que corria a se esconder.

E tudo isso sob os auspícios da lata: era enquanto o ‘procurador’ buscava a lata, lançada à distância, que a molecada se escondia; era batendo a lata no chão três vezes que o procurador acusava um dos moleques escondidos, quando o encontrava; era batendo com a lata no chão três vezes que um dos escondidos desmontava todo o esquema de busca montado pelo procurador, aparecendo antes de ser acusado.

Não sei se já deu para perceber, mas o pé-na-lata era uma brincadeira de tensão constante. A lata funcionava como uma espécie de cidadela, a ser protegida pelo procurador e a ser tomada pela molecada que se escondia. Duplamente tenso ficava o procurador, pois tinha de localizar a molecada escondida e, ao mesmo tempo, tomar conta da lata, para evitar que algum aventureiro lançasse mão e o procurador fosse obrigado a reiniciar sua missão de procura.

Donde se depreende que a pior das funções do jogo era a de procurador: tinha de localizar seis ou sete moleques escondidos e tomar conta para que nenhum desses seis ou sete moleques escondidos saísse do esconderijo antes que ele o acusasse e tomasse a cidadela representada pela lata.

Por isso, ninguém queria ser procurador. Por isso, ser escolhido procurador era uma espécie de castigo. Por isso é que se fazia uma seleção rigorosa e o último dos perdedores era quem sofreria o castigo de ser incumbido de procurar a molecada escondida. Era uma seleção à base da sorte, mas necessitava também de um pouco de esperteza – porque quem começava a selecionar o procurador, e se livrava com isso do risco de ser ele próprio o procurador, era quem gritasse ‘chiniqueiro’ em primeiro lugar!

Quem se autoproclamasse chiniqueiro pegava uma pedrinha no chão e estendia as mãos para o que o primeiro participante da brincadeira – este teria de gritar ‘primeiro!’ antes dos outros, mas ele podia facilmente ser ultrapassado na posição por quem gritasse ‘zerinho!’ em seguida ou por quem gritase ‘Deus manda em tudo!’ ao final da gritaria; dá para imaginar a zona que cercava o chiniqueiro? – escolhesse a mão vazia.

Quem escolhesse a mão com a pedrinha, repetia a operação com o próximo participante, até que todos tivessem passado pela escolha. Quem ao final ficasse com a pedrinha, era o escolhido – ou condenado – a procurar a molecada que se escondia. Se ele localizasse todos os escondidos, o primeiro acusado seria o próximo procurador; se alguém conquistasse a lata antes de todos serem localizados, o procurador teria de recomeçar a missão (ou o castigo) de procurar a molecada. A brincadeira podia durar o dia todo e, não raro, estender-se até depois de o sol se pôr...


Divertido, né? Mas a principal função deste texto não foi divertir os estimados leitores. Foi protestar contra o absurdo que é a gente não encontrar a palavra chiniqueiro no dicionário!

 

Tem ‘deletar’, tem ‘escanear’, mas não tem chiniqueiro!

 

Alguma coisa contra as velhologias? Os dicionaristas nunca brincaram de pé-na-lata?!

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