Por: Cronicidade
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De volta ao lar

13/06/2013

O inverno se aproxima com seu espectro gelado. Antes da estação fria e da reclusão forçada, é impossível desperdiçar em casa os belos dias de veranico que têm baixado sobre a nossa região. O segundo fim de semana de junho estava perfeito: temperatura elevada durante o dia, céu azul-turquesa, brisa amena ao entardecer. Enquanto minha digníssima senhora prosseguia na solitária missão de amamentar nossa bebê recém-nascida, arrastei o irmãozinho mais velho para um passeio na Barra da Lagoa. Quando faltarem ideias para entreter as crianças, o Projeto Tamar é sempre uma boa opção. Tartarugas de verdade com mais de 100 quilos são o suficiente para distrair por algumas horinhas a mente dispersa de uma criança. Naquele sábado, os monitores do projeto transformaram a alimentação dos bichos em um pequeno evento, para o deleite da plateia de pais e filhos. Foi bom passear com o moleque, enquanto as meninas ficavam em casa. Ele está mesmo na idade de sair um pouco do abrigo da asa materna, agora que perdeu espaço para a caçula. E é sempre uma boa companhia, um menino educado e obediente. Terminamos a visita às tartarugas gigantes e voltamos para casa trocando impressões sobre a exuberância da natureza e a melancolia do cativeiro.

 

No dia seguinte, entorpecido por outro tipo de reclusão forçada, ocasionada pelas tarefas domésticas exigidas pelo nascimento de mais um filho, resolvi abandonar a família. Podia dizer que iria comprar um maço de cigarros e sumir no mundo (a clássica imagem do abandono do lar), mas optei por uma atitude mais responsável: peguei o carro e toquei para longe de Florianópolis. A ideia era passar o dia sozinho. Antes de sair da Ilha – a cada dia com mais cara e jeito de selva urbana –, ainda levei uma fechada no trânsito e discuti com o motorista. Depois foi só atravessar o tráfego pesado da BR-101, pegar a BR-282 e começar a subida da serra. Deixar o cheiro de fumaça para trás e inspirar fundo o ar limpo... Cheguei a Rancho Queimado, cidadezinha bucólica a 60 km da Capital, terra do morango e do sossego.

Fiquei rodando pelas estradas de chão que ligam as localidades do município. Taquaras, Mato Francês, Rio Acima... Quase tudo era paisagem bruta, sem seres humanos para compor o cenário. Morros, riachos, araucárias, canteiros de hortênsias maltratados pela geada, ajuntamentos de 4 ou 5 bois no pasto, um motoqueiro rodando solitário, uma linda casa antiga e abandonada. Visitei alguns lugares mais afastados sonhando com o futuro numa chácara isolada, cercado de mato e silêncio... Quando cansei de subir e descer sem destino certo, dirigi até o centro da cidade para comer alguma coisa. Lá havia gente: famílias brincando na pracinha, senhores jogando dominó, um ou outro nativo contemplando a mera passagem do tempo. Entrei em um dos três restaurantes locais e tracei um espeto corrido de primeira por R$ 20. Depois dei uma olhada nas barraquinhas montadas na praça para venda de doces e roupas de frio. Devia ter comprado uma geleia de morango para a patroa, mas era um dia para esquecer um pouco da família.

Entrei no carro e iniciei a descida da BR-282. Vez em quando surgia na curva o cenário da serra alongando-se até o horizonte. Reduzi a velocidade, abri bem a janela para aspirar o ar fresco, mas uma caminhonete colou na traseira, pressionando para ultrapassar e chegar mais cedo lá embaixo. Pleno domingo e os motoristas com pressa. Reflexo condicionado. Você nem sabe por que está correndo, mas é impelido à velocidade como se um cupim estivesse roendo suas tripas. Trânsito retido no final da 282 e pesado na 101, como sempre. Adeus cheiro de mato, de volta ao futum de óleo queimado. Mesmo assim a entrada da Ilha estava divina com as luzes do fim de tarde sobre a baía. Rodei um pouco pelo centro vazio, topando com os personagens de um domingo morto: catadores de lata, vagabundos e cidadãos solitários buscando matar o tempo. Fui embora para casa quando o sol baixou, deixando um rastro de prata na velha carcaça da ponte Hercílio Luz.


De volta à família, mulher, filhos, lar.
Amanhã é segunda-feira, dia de ganhar a vida.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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