Por: Cronicidade
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Destino

08/07/2013

Ficar em casa um domingo chuvoso inteiro, sem fazer absolutamente nada, é uma arte.


Em primeiro lugar, você tem que gostar de ficar só.


Em segundo lugar, você tem que conseguir ficar só. Ou seja, tem que se livrar por um dia da sua família e dos seus amigos. Tem que esquecer os compromissos sociais e familiares, aqueles que você acaba incorporando às obrigações cotidianas e aceitando resignadamente, mesmo que os abomine.


Em terceiro lugar, você tem que conseguir ficar no mais completo ócio sem remorsos, numa corajosa afronta à sociedade moderna e tecnológica, com suas exigências de competitividade, “felicidade” e “movimento”. Vide os sorrisos triunfantes e as vidas perfeitas expostas sem constrangimento no Facebook.


Escrevi no início da crônica que o ócio é uma arte. Na verdade é mais que isso. Trata-se de um verdadeiro desafio existencial.


O homem diante de si mesmo, do Grande Vazio, sem mentiras ou válvulas de escape.


Quando você atravessa um domingo solitário e ocioso por vontade própria, enfim você estará preparado para enfrentar a essência da solidão da vida.


Após horas e horas de programação televisiva, leituras esparsas, uma rápida investida arqueológica a velhos LPs, um macarrão com nuggets, alguns cigarros, uma ida mais demorada ao banheiro enquanto o canto de um pássaro teimoso atravessa o silêncio da tarde, você enfim se vê diante do último estágio do desafio: a vinheta do Fantástico. Ou pior, do Pânico na TV. É quando você se sente menor que um grão de areia preta numa praia escocesa inóspita.


Vem aquela falta de vontade, a lembrança antecipada da eterna segunda-feira que se repete, repete, repete... Você vai até a geladeira pegar uma cerveja para fingir que é sexta (claro que não funciona); aproveita para espiar a folhinha do calendário pregada com ímã na porta e se dá conta que metade de mais um ano já se foi.


São nove horas da noite.


E de repente como a aparição de um espírito, chega o momento tantas vezes adiado, ignorado. Você se vê sozinho e desamparado diante do Destino.


A campainha de casa toca, você escuta o chorinho de um bebê e o alarido de uma criança mais crescida. Abre a porta com a alma apaziguada e acolhe a esposa e os filhos, que foram passar o dia com a família.


Meia hora depois já é outra história. Ou a mesma de sempre.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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