Por: Cronicidade
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Dia de forra

10/09/2013

É interessante como as nossas vidas vão se misturando com as de nossos filhos com o passar dos anos, à medida que eles crescem.


Outro dia levei meu moleque para experimentar um horário novo na aula de natação. Sem os amigos a que estava acostumado a dividir a piscina, ele ficou envergonhado, travado, e se recusou a entrar na água. Fiquei meia hora tentando convencê-lo, em vão. Voltamos para casa e isso ferrou meu dia. Fiquei chateado e frustrado por ele.


Essa idade (5 anos) é complicada. A criança precisa do amparo permanente dos pais para lidar com seus medos e limitações. Digo isso sem qualquer conhecimento acadêmico, mas apenas pela experiência do convívio diário. No caso dos meninos, a partir dessa idade o pai passa a ter um papel fundamental na construção da autoestima. É uma grande responsabilidade. Requer dedicação, tempo, paciência, amor incondicional. Difícil é ter todos esses atributos simultaneamente...


No dia seguinte ao fiasco na natação, fomos juntos à forra. O passeio – ou melhor, expedição – às dunas da Joaquina já estava marcado há uma semana. Acordamos cedo, colocamos duas garrafas d’água e a máquina fotográfica na mochila e partimos.


Foi um dos dias mais especiais da minha vida. Vê-lo com os pezinhos na areia correndo pela imensidão branca, subindo corajosamente os montes e encarando os labirintos de vegetação, foi maravilhoso. Um retrato perfeito da liberdade primitiva que só as crianças são capazes de alcançar...


Andamos por duas horas, quase sempre sem mais nenhuma companhia humana. Queríamos encontrar a “lagoa secreta” e erramos o caminho duas vezes. Atravessamos um laguinho menor para escapar de uma volta enorme, conversamos com os patos, descobrimos formigueiros parecidos (segundo ele) com cérebros, achamos uma flor lilás solitária, corremos, pulamos e aproveitamos que não havia ninguém por perto para gritar e extravasar o prazer do momento.


Por fim, encontramos nosso alvo principal, no mesmo instante em que fomos envolvidos por um forte pé de vento. Cegos pela areia levantada, tivemos que correr dali. Coloquei-o nos ombros e caminhamos assim de volta até a Avenida das Rendeiras. Fim da aventura.


Voltamos para casa de alma lavada. No mesmo dia já percebi mudanças no comportamento dele. Ficou mais ousado, confiante.


Combinamos que, a partir de agora, toda semana vamos fazer uma nova expedição. O que não falta na Ilha é lugar para explorar. E melhor companhia não existe.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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