Por: Cronicidade
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Duas fotografias de viagem

26/10/2013

Saí de circulação nas últimas semanas, como convém nas férias, quando o objetivo é golpear duramente a rotina, mandando-a para o espaço. Mochila nas costas, vontade de andar e de ver, vontade de sentir o doce cheiro da liberdade e alguns pesos para forrar a barriga e cair em hoteizinhos baratos. Tudo checado? Pé na estrada. Viajei sozinho na direção do Sul, de onde trouxe para este blog dois breves relatos, dois instantâneos da vida em outras paragens.

 

O garçom argentino

Entrei no restaurante, numa esquina qualquer do Centro de Buenos Aires. Estava cheio de fome depois de caminhar mais de 8 horas seguidas. O estabelecimento parecia oferecer aquela suculenta carne argentina, entrei.


Sentei-me numa mesa perto da janela para desfrutar a paisagem cotidiana, o eterno vai-vem de gente apressada nas ruas. O garçom fingiu que não me viu entrar. Continuou como estava, jogando conversa fora com outro garçom. Passaram-se 2 minutos sem que nenhum deles se movesse. Dei uma espiada e o mais velho se aproximou de má vontade, carrancudo. Entregou o cardápio e fez a pergunta de praxe, dentes rangendo.


“Como está”?


Notei a hostilidade e respondi olhando bem nos olhos dele:


“Bem, e você”?


Ele não esperava que eu perguntasse como ele estava. Nitidamente levou um susto. Ficou desconfiado de alguma ironia implícita. Fechou ainda mais a carranca. Depois de uma pausa para digerir o ímpeto de me xingar, retrucou:


“Tratando de sobreviver”.


“Sei... O gerente do hotel onde estou hospedado aqui perto indicou esse restaurante”.


“Lamento, você foi enganado”.


Comecei a gostar dele. Sujeito carrancudo, mas com senso de humor. Um humor cinzento e duro, mas humor. Pedi uma cerveja e um bife de chorizo dos grandes. Comi tão bem que cheguei a ter a impressão de sentir um forte barato. Depois a conta, e a carranca ali, intacta. Então resolvi que iria conquistar a amizade daquele cara. Dei-lhe 30 pesos de gorjeta. Os olhinhos do argentino brilharam, ele sorriu em paz com o mundo, me segurou pelo ombro e sussurrou um importante segredo. Se eu voltasse no dia seguinte, iria comer algo ainda melhor, algo estupendo, magnífico, inesquecível. Escoltou-me até a saída e acenou alegremente enquanto eu atravessava a rua.

 

 

O mímico uruguaio

Às margens do Rio da Prata, no Sul do Uruguai, existe uma linda cidadezinha, patrimônio da Humanidade, com fortes laços históricos com a Ilha de Santa Catarina. Chama-se Colônia do Sacramento. Um lugar mágico, com o mais lindo pôr-do-sol a que já assisti na minha vida. Estive lá por alguns dias e já penso em voltar.


Na véspera da volta ao Brasil, resolvi ler meus e-mails para recomeçar a estabelecer contato com o resto do mundo. Fiquei sabendo da morte de um colega de trabalho, um sujeito de 34 anos, quase 2 metros de altura e 120 quilos. Câncer. Não teve chance. É o tipo de notícia que automaticamente nos reduz ao tamanho de um grão de areia ao vento.


Saí para a rua vazia, ainda era bem cedo, minhas pernas estranhamente pesadas, a memória lembrando cenas, a razão tentando entender o que estaria por trás disso. Andava sem ver, uma tristeza difusa reavivada pela ignorância primordial que carregamos ao longo da vida, a ignorância sobre o destino de cada um. Uma vontade repentina de abraçar meus filhos e nunca mais sair de perto deles.


Entrei na igreja, caminhei até o altar, rezei um pouco, mesmo sem aquela fé cega, apenas incertezas. Depois andei até a margem do Rio da Prata, bem ao lado das ruínas na entrada do Casco Histórico. Passei ao lado de um casal de turistas e me afastei. Parei debaixo de umas árvores secas e fiquei escutando o som dos pássaros e das ondulações batendo nas pedras da margem.


Senti necessidade de falar com alguém, então liguei a câmera e ia começar a gravar um desabafo quando surgiu um homem de meia-idade, cabelos grandes, olhos vermelhos, mochila nas costas. Estendeu-me a mão e se apresentou. Uruguaio, mímico. Tirou da mochila uma garrafinha com um líquido dourado, uma espécie de cachaça artesanal típica do país, e me ofereceu um trago. Não eram 9 horas da manhã. Senti o forte bafo do sujeito, um bom sujeito. Puxou papo, falamos sobre a beleza de nossos países, sobre a liberdade de viajar. Depois ficamos quietos escutando o canto de um pássaro. Ele se virou e deu alguns passos até a beira do rio. Abriu os braços e saudou o dia:


“Aaahhhh, qué bueno... ESTAMOS VIVOS”!


Toda a sabedoria do mundo estava ali contida, na voz de um artista de rua, bêbado e solitário. Cumprimentei-o, feliz por ter compartilhado aquele momento. Desejei-lhe felicidades e segui meu caminho.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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