Por: Cronicidade
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Histórica noite fria

21/06/2013

 

É bem provável que as manifestações de protesto não tenham a força necessária para sanar a podridão entranhada na política brasileira, mas uma coisa é certa: o dia 20 de junho ficará marcado na História. Em Florianópolis, dezenas de milhares de pessoas tomaram as pontes e as principais avenidas para extravasar sua insatisfação. Os críticos do movimento dizem que falta foco aos manifestantes – o que eles querem afinal? Como se isso tivesse alguma importância em um país em que quase nada funciona como deveria. O recado da massa é claro: está tudo errado e a paciência acabou. Corrupção endêmica, mortes na fila do SUS, educação precária, privilégios absurdos para a classe política, Justiça lenta e burocrática... A lista é extensa.


Em uma noite feia, fria e chuvosa, o protesto ganhou força e as ruas foram ocupadas por jovens irreverentes, casais apaixonados, pais maduros com seus filhos adolescentes, homens solitários, gente de todas as cores, idades e classes sociais. Na Avenida Beira-Mar Norte, os moradores piscavam as luzes de seus apartamentos de luxo em apoio aos manifestantes. No conforto de suas casas, alguns políticos devem ter pensado: até onde vai isso? Será que vamos perder nossos privilégios? Um frio deve ter corrido por suas espinhas, enquanto o povo gritava indignado. “Durma com um barulho desses”, alertava um dos cartazes erguidos na multidão.

O protesto histórico surgiu de uma catarse coletiva, sem líderes definidos, sem partidos políticos, sem cabrestos. Nasceu da revolta do cidadão comum, do trabalhador que passa a vida batalhando para pagar impostos e não ter nada do governo em troca. Após duas décadas de silêncio, a voz das ruas voltou a ser ouvida. Ninguém aguenta mais a desfaçatez da classe dirigente, cuja única meta é a próxima eleição. “Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”, avisaram em coro os florianopolitanos. Quase pude ver o sorriso cínico de um político mais escolado diante da TV, em sua mansão, enquanto sorvia seu uísque importado.


No final do protesto, como no final de todas as grandes manifestações da vida, ficou aquela sensação de ressaca e incerteza, misturada a um fio de esperança. Sensação de dèja-vu, de um filme antigo em que o lado mesquinho e obscuro da natureza humana sempre sai vencedor, como provam os exemplos do jovem revolucionário que vira um velho corrupto condenado à prisão, ou do líder estudantil que perde os cabelos e ganha um cargo comissionado.


De qualquer modo, valeu a pena sair às ruas na noite fria de 20 de junho. A multidão enfim desperta, entoando o Hino Nacional e saltando as poças no caminho, tentou mostrar quem são os verdadeiros donos da cidade e do país. Talvez tenham conseguido, talvez não. Fico na expectativa de que o inverno da esperança não chegue no dia seguinte para congelar nosso velho sonho de um Brasil melhor.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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