Por: Cronicidade
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Escravidão

07/11/2013

Saio do trabalho e desço a Rua Altamiro Guimarães para pegar o ônibus na Beira-Mar. No fone de ouvido, escuto uma velha canção que não combina com a realidade à minha volta. Mas olho em frente. Ando devagar para aproveitar a visão do entardecer na Baía Norte. Um senhor de cabelos brancos e agasalho do Avaí passa por mim apressado, uma buzina berra na frente do shopping, a fila de carros tranca o cruzamento da Bocaiúva. Tudo normal. Procuro não perder o foco no sol que lentamente se arrasta até o horizonte.


No ponto de ônibus, quatro mocinhas parecem máquinas plugadas numa rede eletrônica invisível. Todas estão sentadas com seus aparelhinhos na mão, cabeças baixas, dedos ágeis, expressões alheadas, futucando as velhas novidades expostas na internet. Bem diante delas, o céu começa a mudar de cor. Mas elas não veem. O Face é mais atraente.


Uma das moças engrena um bate-papo frenético. Seus dedinhos são experts na arte do chat. Vale tudo para o tempo passar mais rápido no ponto de ônibus. Às vezes a demora passa de 40 minutos. Isso na hora do rush. Motivo suficiente para a histeria coletiva consumista em busca do carro próprio. Fato comprovado diariamente pela maré crescente de motores entupindo a avenida.


O aparelho da mocinha concentrada (dizem que se chama iPod ou coisa parecida) é cor-de-rosa berrante, adornado por uma correntinha dourada e um adesivo colorido. É preciso chamar a atenção para o seu sonho de consumo tornado realidade.


É preciso saber da vida de todos no Face. Os menores detalhes. A felicidade eterna. É preciso comunicar que o dentista vai arrancar seus sisos amanhã. Que os pimpolhos foram ao parquinho. Que o almoço caiu bem. Que o chefe deu-lhe um esporro. Qualquer coisa serve, o importante é existir. E fora da rede, anônimo, parado à espera do ônibus, você não é ninguém.


O ônibus passa, eu faço sinal, entro. Saco um livro da mochila. Olho em volta. Metade dos passageiros está plugada. “No ônibus, voltando para casa”!!!, alguém posta. A outra metade está de olhos fixos no vazio, tentando apagar da memória mais um dia que não merece ser lembrado.


O mar engole o sol, o céu sangra. Outro dia chega ao fim, a vida segue adiante. O tempo não para. Mas isso não interessa.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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