Por: Cronicidade
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Espírito natalino

23/12/2013

Não adianta. Não consigo me acostumar com as esquisitices e excessos dessa época do ano. Um desavisado pode imaginar que toda a humanidade, de repente, está tomada pelos espíritos da bondade, da tolerância e da solidariedade... As ruas enfeitadas com luzes coloridas, presépios, árvores de Natal, tudo tão lindo... No dia 26, o mais tardar no dia 1º, o nosso velho mundinho, envolto numa ressaca braba, torna a ser o mesmo de sempre, sem falsas aparências.


Enquanto isso, tome propaganda usando Papai Noel como mote. Compre, compre, compre... Sempre a mesma ladainha. “Consumo, logo existo” – esse é o lema da manada de consumidores ávidos. Celulares, iPods, TVs de plasma, carros, chaveirinhos, meias, cuecas, qualquer coisa serve. O importante é consumir.


O impressionante é que a maioria das pessoas compra mais do que pode e se endivida a perder de vista, como vaquinhas seguindo resignadas para o matadouro. A sociedade exige, tacitamente, que você distribua presentes até para os cunhados, a faxineira e o filho do vizinho... Cai nessa armadilha quem quer.


E tome banco fazendo marketing na TV sobre os mais altos valores humanos. A publicidade mostra famílias felizes, sonhos realizados, tudo tão lindo... Na hora de cobrar juros e taxas extorsivas os bancos não parecem tão bonzinhos...


Enquanto isso, vemos shoppings lotados de consumidores frenéticos, praias lotadas de turistas alegres. Que bom... E tome filas quilométricas para todos os lados, autofalantes de carros com funk no último volume, beach clubs tirando o sossego dos moradores até altas horas (vale tudo pelo lucro), novos ricos deslumbrados rasgando dinheiro e tomando banho de espumante, lixo espalhado por todo canto, comerciantes inflacionando os preços... Tudo tão lindo...


Eu prefiro me fechar em casa e ficar escutando o canto dos pássaros, balançando na rede, curtindo minhas crianças, lendo bons livros, deixando o tempo escoar sem neuroses, o mais longe possível do consumismo desenfreado, das diversões forçadas. Não troco por nada meus modestos passatempos. Pena que às vezes esse sossego é perturbado por algum bate-estaca eletrônico, como a me lembrar da confusão espalhada do lado de fora. Tento ser paciente e espero, resignado, que o furacão passe. E tudo volte a ser exatamente como sempre foi.


Ho-Ho-Ho!, como diria o Bom Velhinho. Feliz Natal!

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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