Por: Cronicidade
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Floripa para principiantes

17/06/2013

Cheguei a Florianópolis no final de 2000, depois de ser roubado em um dia de folga na praia, pedir demissão do emprego no dia seguinte, abandonar o Rio de Janeiro e cair na estrada. Mil e duzentos quilômetros depois, parei o carro na Avenida das Rendeiras e me quedei um bom tempo extasiado com a beleza e o sossego da Lagoa da Conceição, em plena tarde de domingo, sol e primavera. Dali pra frente, com pequenas interrupções, esta paisagem virou meu quintal, parte do meu cotidiano. Já faz tempo, mas não há um dia em que atravesse a avenida com indiferença.


Talvez seja essa sensação que milhares de pessoas busquem na Ilha, fugindo do estresse, da sujeira e da violência dos grandes centros urbanos. Mas o tempo não passa impunemente. Nada permanece igual. Em um primeiro olhar, Floripa já não é a mesma. Cada vez mais lembra uma confusa metrópole. Se eu chegasse hoje à cidade e parasse na Avenida das Rendeiras, a primeira impressão poderia ficar comprometida pelas longas filas e pelo cheiro de esgoto...


No entanto, a verdadeira alma da Ilha segue intocada, e assim seguirá por muitas décadas ainda. Os novos moradores devem vir preparados para buscar o tesouro escondido. Quem quiser encontrar ouro a cada esquina, vai se decepcionar.


Desbravar Floripa é trabalho para uma vida inteira. Suas praias selvagens, recantos isolados, velhos costumes e personagens raros estão ocultos. Você precisa gastar tempo e sola de sapato para encontrá-los, em meio à crescente selva de edifícios, avenidas, elevados, pontes e correria desenfreada.


Se está chegando agora, procure saber mais sobre a Lagoinha do Leste, a Ponta das Almas, a Ilha do Campeche, a Praia de Naufragados, a Costa da Lagoa... Veja com seus próprios olhos e pise com seus próprios pés as Dunas da Joaquina, o Morro das Aranhas, a Fortaleza da Barra, a Praia do Matadeiro... Poucos lugares no mundo possuem tanta beleza protegida. Um deles é esta ilha-cidade, ainda que continue crescendo em uma velocidade assustadora.


Quer viajar no tempo, tire um domingo para andar pelas ruas do Ribeirão da Ilha. Depois saboreie umas ostras com cerveja. Quer aventura? Embrenhe-se em uma das trilhas entre morros e matas isoladas, que resistem incólumes de norte a sul da ilha, como veias e artérias que mantêm a cidade viva.


A maioria dos moradores passa a vida sem conhecer metade das maravilhas de Floripa. Sem perceber, viram reféns de seus carros zero, dos shoppings e suas escadas rolantes, das academias de ginástica e barzinhos assépticos, de passatempos em domicílio, prazeres confinados. Preguiça e medo causam paralisia, enquanto a vida se esvai rapidamente...


Tudo o que você tem a fazer é andar por aí. Mesmo sem querer, tateando sob a sombra ameaçadora dos espigões e o nervosismo da pressa irracional, você vai acabar topando com a cidade genuína, eterna. Essas descobertas certamente vão eliminar qualquer dúvida que você ainda tenha sobre o lugar que escolheu para viver.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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