Por: Fala, Zanfra!
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Fratura exposta

04/03/2019

Conforme prometido, eis a história original que inspirou o tema ‘Minha mão esquerda’, publicado na semana passada:


Parece enredo de um filme de mistério...

Você acorda e demora alguns segundos para descobrir que está na cama de um hospital. E que tem o braço direito envolvido em gesso. Não faz a mínima ideia do que aconteceu. Sua última lembrança é a visita a uma agência dos Correios.

Como você foi parar lá? Por que seu braço está engessado? Por que está sozinho numa enfermaria onde caberiam outras três pessoas? Teria sido vítima de uma quadrilha especializada no tráfico de órgãos humanos? Seu rim ainda está no lugar onde deveria estar?

... pausa dramática...

Aos poucos, você acaba descobrindo que, embora pareça, não há ali nada de filme de mistério.

É uma história bem real, que está acontecendo com você. As muitas perguntas sem resposta que habitam sua cabeça estão lá unicamente porque sua memória está enevoada pelo álcool. Basta conversar com a enfermeira e ter acesso aos registros do pronto-socorro para preencher algumas lacunas de sua lembrança:

1 – A última recordação é a passagem pelo posto dos Correios. A agência fica no centro de Cuiabá, próximo à prefeitura. Você passou por lá para verificar se havia chegado um vale postal que deveria ter sido enviado por uma amiga de São Paulo. O dinheiro ainda não havia chegado.

2 – Aqui começa o vácuo mnemônico e as especulações: na avenida da FEB, a extensa ligação entre Cuiabá e Várzea Grande, você foi atropelado não sabe por que veículo, dirigido não sabe por quem. No local, um posto de combustível chamado Marco Zero, é onde os travestis fazem ponto à noite; para a defesa de sua moral e bons costumes, o atropelamento aconteceu à tarde. Especulação: você pode ter pego o ônibus errado e resolvido seguir a pé o restante do caminho até em casa, uns quatro ou cinco quilômetros adiante (você mora em Várzea Grande, perto do aeroporto).

3 – Você não tem qualquer resquício na memória sobre o atropelamento em si. Só sabe que acordou no pronto-socorro de Várzea Grande com fratura exposta do úmero direito e sede, muita sede. E então você descobre, alguns meses mais tarde – o médico que te atendeu no PS não verificou isso, veja só! – que tinha sofrido também traumatismo craniano. Você acabou com um hematoma subdural, que só foi drenado em Blumenau – onde foi passar uns dias – após ter alguns lapsos de consciência e dificuldade de falar: mesmo tendo passado 23 dias no Hospital Santo Antônio, você só consegue lembrar-se claramente de seis desses dias, posteriores à cirurgia para a drenagem do coágulo. Os outros dezessete dias não passam de fragmentos de memória.


Voltando à primeira pessoa, o atropelamento aconteceu no dia 31 de agosto de 1994, nove dias depois de minha chegada a Cuiabá, para onde me mudei, convidado a fazer parte da criação do jornal Folha do Estado. Não preciso dizer que minha participação na fundação do jornal foi mínima.

Fui operado ainda na capital do Mato Grosso. O médico colocou uma placa com sete pinos no osso fraturado. Essa placa está ali até hoje: o cirurgião ficou com medo de abrir meu braço de novo e atingir o nervo radial, o que me deixaria com a mão paralisada no formato de garra. Precisei de quase um ano para recuperar a retidão e a mobilidade no braço direito, mas não tenho qualquer tônus nele; sinto dores quando tento utilizá-lo para alguma tarefa que requeira o uso de força, como abrir um vidro de azeitonas, por exemplo.

Depois da cirurgia que reconstruiu o úmero, fiquei ainda algum tempo em Cuiabá, um inferno (no bom sentido) cujas temperaturas ‘amenas’ beiram os 40 graus. Graças a esse período e ao acidente em si, tive material para escrever a crônica da semana passada. Algo assim como “se a vida te dá um limão, faça uma limonada e depois escreva uma crônica”. 

Mas há males que vêm para bem: o hematoma subdural teve importância fundamental em minha vida, já que, depois da cirurgia, fui obrigado a tomar um medicamento anticonvulsivante – carbamazepina, minha acompanhante durante sete anos – que proibia a ingestão de álcool; graças a isso, estou há 24 anos longe da bebida.

Se não estivesse, vocês muito provavelmente não estariam lendo este texto...

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