Por: Cronicidade
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Gorjeta

27/06/2013

O desembargador encostou-se ao balcão do bar para o sagrado cafezinho do fim de tarde, como fazia há décadas, desde quando era um calouro de Direito com ideias revolucionárias. Naquela terça-feira, sua excelência estava alegre e falante. Normalmente era um sujeito sisudo, pois se obrigava a manter uma certa distância dos meros mortais. Talvez essa alegria seja por causa de uma nova amante, talvez seja algum processo que deixou o nome do doutor em evidência na mídia, pensou o atendente de imaginação fértil, enquanto colocava o açucareiro diante do freguês importante.


– E então, meu caro, como anda a vida? – perguntou o desembargador, para surpresa do atendente.


– Tu-tudo em ordem, doutor. Tá quase na minha hora. Hoje é dia de protesto e eu quero ir lá ajudar a fazer barulho.


– Huumm... Fazer barulho. Você também acha que a tarifa de ônibus está muito cara.


– Não é só isso, doutor. O povo tá de saco ch... tá indignado. Nada funciona nesse país. A vida do pobre podia ser melhor, se não fosse toda essa corrupção...


– Sei. E você está estudando, meu filho?


– Estudando? Que nada, doutor! Tenho dois empregos e ainda faço uns bicos no fim de semana. São três bocas pra dar de comer. Chega no dia 15 já não tenho um tostão no bolso. Outro dia fiquei seis horas no pronto-socorro esperando atendimento pro meu guri e nem tinha remédio... O senhor tem filhos?


– As coisas hão de melhorar, meu caro. Com licença...


O magistrado cortou a conversa e caminhou em direção ao banheiro. O atendente percebeu quando um pequeno papel dobrado caiu do seu bolso. Ia alertar o freguês, mas no caminho para o toalete ele parou para trocar algumas palavras com o vereador comunista que tinha o hábito de se postar no canto do estabelecimento para saborear sua cerveja em paz.


O atendente deu a volta no balcão e pegou o papel para entregá-lo depois ao desembargador. Viu o timbre da Justiça no alto da folhinha e não conseguiu conter a curiosidade. Disfarçou, olhou para os lados e desdobrou o papel. Seus olhos foram se arregalando e o queixo caindo. Aquilo devia ser uma pegadinha... Estava ali escrito: salário básico R$ 23 mil e uns quebrados, auxílio-moradia R$ 4 mil e pouco, auxílio-alimentação retroativo R$ 40 mil. Releu este item, pois nunca tinha visto tanto número junto. Re-tro-a-ti-vo?, releu novamente. Ficou sem entender.


Havia outras cifras menores, mas não teve tempo de ler tudo. Quando se deu conta, o desembargador estava parado diante dele. Assustado, dobrou o papel e tentou disfarçar. Entregou-lhe o contracheque e balbuciou desculpas. O desembargador sorriu condescendente, deixou R$ 2 de gorjeta e desejou-lhe uma boa passeata.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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