Por: Fala, Zanfra!
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Há 40 anos…

21/01/2019

No próximo mês de maio, vai fazer 40 anos que aconteceu a única greve de jornalistas de que participei na vida. E a única vez em que apanhei da polícia em causa própria.

Antes, no início de minha carreira como jornalista, apanhei muito por causa da greve dos outros: repórter novo, cobrindo greve, sabe como é, está onde estão os piquetes e as passeatas; consequentemente, está onde estão a pancadaria e as bombas de gás lacrimogêneo da PM. Seja em São Bernardo do Campo ou no centro velho de São Paulo, tomei muita porrada e respirei muito gás na onda das greves dos metalúrgicos, dos bancários, dos estudantes, do raio que o parta.

Só desta vez, na histórica e fracassada greve dos jornalistas de São Paulo, em maio de 1979, apanhei não como coadjuvante, mas como protagonista. Apanhei na frente do Estadão, no Bairro do Limão; apanhei na frente da Folha, na Barão de Limeira, apanhei na frente dos Diários, na Sete de Abril.

Foram seis dias de greve, seis dias de piquetes e pelo menos três dias de confrontos com a polícia. Ganhamos alguma coisa? Sim: experiência, muita experiência. Ao final, voltamos às redações com o rabo entre as pernas, esperando as demissões que certamente viriam.

Não estou aqui, porém, para fazer um resgate histórico, buscar causas e consequências da paralisação. Quero apenas lembrar de minha participação no movimento, da participação de um repórter de 23 anos, açodado como quase todos os jovens, que defendeu a greve com veemência em todas as assembleias e só reconheceu que ela era inoportuna e precipitada depois de seu fracasso. O tal do gato escaldado, se me entendem.

Não fui o único gato escaldado, claro. Mas assumi o erro da greve como o erro de toda uma categoria. Não elegi um único culpado, com muitos o fizeram, transferindo a culpa para o presidente do sindicato na época, Davi de Moraes, apelidado maldosamente de Jim Jones, por ter supostamente levado a categoria ao suicídio.

Ora, ora, uma classe vaidosa e autossuficiente, como a dos jornalistas, virou simples massa de manobra nas mãos de um único homem? Aquelas mentes iluminadas deixaram-se levar docilmente como bezerros para o abate? Foram iludidos, os pobrezinhos?

Eu me lembro de assembleias históricas na igreja da Consolação e no Tuca, o teatro da PUC, onde, na madrugada de 23 de maio, foi decretada – com a exigência de dois terços dos votos – a paralisação. O básico da reivindicação era: queríamos 25% de aumento, os patrões ofereciam 16% de antecipação; a última contraproposta – transformando em aumento 2% do que era oferecido como antecipação – nem foi feita pessoalmente: os patrões limitaram-se a publicar um anúncio nos jornais. O repúdio teatral de Perseu Abramo, rasgando o anúncio no palco do Tuca, certamente serviu para convencer muitos indecisos.

Foram seis dias de sufoco, mas os jornais não deixaram de sair um único dia: feito com notas de assessorias de imprensa, telex de agências de notícias e a mão de obra dos fura-greve, era um jornal de má qualidade, que chegava ironicamente a noticiar a própria paralisação. Mas quem, além dos chatos dos jornalistas, preocupa-se com a qualidade do jornal que está nas bancas? O povo comprava e não chiava, o que nos levou a patéticos apelos, pedindo que as pessoas deixassem de adquirir jornais para apoiar nossa greve. Patéticos e presunçosos.

Imagens que marcaram, nesses longínquos seis dias: motoristas da Folha tocando o caminhão por cima de grevistas sentados no asfalto da Barão de Limeira; Henfil, na sede do sindicato, desenhando um a um os cartazes que pediam apoio a nossa greve; Bóris Casoy, então editor-chefe da Folha, fazendo tchauzinho, da sacada do quarto andar do prédio da Barão de Limeira, aos grevistas que buscavam receber o salário do outro lado da rua; a fumaceira tóxica que se espalhava pela Engenheiro Caetano Álvares e pelo córrego Mandaqui, na madrugada gelada em que a PM baixou o pau com mais vontade na saída dos caminhões do Estadão...  E os litros de conhaque que a gente tomava para encarar o frio.

Faz 40 anos, mas parece que foi ontem.

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