Por: Cronicidade
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José, um brasileiro

16/02/2014

José sofreu um acidente de carro há dez anos e ficou tetraplégico. Imagine o que significa para um homem de 30 anos ficar, de uma hora para outra, sem qualquer movimento do pescoço para baixo... Mas José é um homem forte. Encarou o problema de frente. Foi à luta para levar sua vida adiante.


No entanto, José é um brasileiro pobre. Dependente do famigerado Sistema Único de Saúde. Refém de uma cidade que ignora as necessidades dos deficientes. Como se eles simplesmente não existissem.


Em pouco tempo, após receber alta do hospital, José descobriu que a tetraplegia era apenas o seu primeiro desafio. Devido à lesão, ele passou a depender de uma série de equipamentos, remédios e insumos para manter uma mínima qualidade de vida. Se é difícil conseguir até um medicamento comum no posto de saúde, imagine uma lista deles, regularmente, todos os meses...


Impossível? Não para José. Até então ele ainda acreditava que um cidadão podia ser tratado com dignidade em seu país. Mas teve de enfrentar uma longa batalha judicial. Durante oito anos, levou à frente um processo requerendo que o Estado arcasse com todas as despesas do seu tratamento. O mesmo filme de sempre quando se trata de “Justiça” no Brasil: petições, recursos, embargos, intimações, burocracia... Até que saiu uma sentença definitiva obrigando a Secretaria da Saúde a entregar mensalmente todos os insumos e medicamentos necessários ao tratamento.


No Brasil, um “Estado Democrático de Direito” De Mentirinha, várias e várias decisões judiciais são solenemente descumpridas. Sem que ninguém responda por isso. Ainda mais quando se trata do drama isolado de um cidadão comum, longe dos holofotes da mídia, esquecido nos escaninhos empoeirados das repartições públicas.


Durante anos a Secretaria da Saúde não forneceu tudo a que José tinha direito. Sua saúde física e mental foi se deteriorando, bem como sua determinação em seguir adiante. Como faz um homem, tetraplégico, para lutar contra todo um sistema absurdo, inútil e cruel? Luta perdida.


Na semana passada, José enviou uma carta ao Ministério Público comunicando que desistia de lutar para ser tratado com dignidade. Agora ele iniciou uma nova batalha. Quer ter o direito de ser submetido à eutanásia.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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