Por: Cronicidade
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Mães e filhos

10/12/2013

Quando a pieguice entra na sua vida é porque já não existem muitos refúgios para o espírito em meio ao vazio circundante. Passarinhos filhotes são piegas, mas não deixam de alimentar a alma. Falemos de passarinhos, pois, sem medo de sermos piegas.


Neste sábado acordei cedo com o barulho de pios desesperados. Pareciam vir de dentro do armário. Agucei os ouvidos pensando em qual seria o visitante inesperado dessa vez.


Os pios vinham do sótão. Era um pássaro perdido. Certamente um filhote que saltara do ninho construído num vão do telhado e caíra na parte de dentro da casa. Abri o alçapão e esperei que ele pulasse. Outro pio nervoso continuava martelando em algum lugar perto do sótão.


Pegamos o filhote e adotamos o procedimento padrão para casos desse tipo: demos comida e o colocamos numa caixa de sapato. As crianças adoraram a brincadeira. Acho que elas se identificaram com a fragilidade do bicho, aquele comovente bico escancarado suplicando por alimento.


Depois do café da manhã, bucho forrado, o passarinho ficou na caixa descansando, na área externa da casa. Não demorou muito para surgir a mãe dele, uma canarinha amarela. Sem se importar muito com a presença humana, mandando a cautela pro espaço, ela se aproximou da caixa, chamou o filhote para fora e o encheu de afagos. A cena demonstrou algo de que só as mães são capazes: ignorar qualquer barreira para confortar sua cria.


Minha mulher, rodeada por seus próprios filhotes, logo se identificou com a angústia da mãe cujo filho se perde no mundo, uma angústia pela qual toda a mãe passa um dia. Solidária, tratou de prestar toda assistência à sua colega.


E eu batizei o filhote de Hernane, em homenagem ao artilheiro do Mengão.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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