Por: Cronicidade
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Meus manezinhos

09/08/2013

Um casal de filhos manezinhos é meu saldo atual da aventura de migrar para Florianópolis, 13 anos atrás. A mãe deles (e amor da minha vida) também é daqui. Cresceu entre a Caeira do Saco dos Limões e o Ribeirão da Ilha. Hoje sou minoria em casa – o único haole da família. Creio que, com isso, já obtive minha “cidadania florianopolitana”. Mas isso não tem a mínima importância. Nunca acreditei que pessoas se definem pelo local onde nasceram. Meu mundo ideal seria desprovido de fronteiras e nacionalidades. Mas isso é outra história.


Meus filhos me deram um certo sentido de enraizamento que achei que jamais teria. Depois de viver sem rumo no meio do mundo, de sair do Rio de Janeiro, sair do país, sair de Floripa duas vezes para depois voltar, acho que enfim encontrei um bom lugar para viver, mesmo em meio à fumaça e ao barulho do presente. A companhia das crianças operou o milagre. Tenho saudades da minha cidade de origem, mas os filhos ajudam a abafar o sentimento de desterro. Eles são meu aval e minha âncora aqui na Ilha.


Na verdade, claro, são muito mais que isso. São quase tudo o que realmente importa.


Se existisse algum sentido para a vida, seria a existência dos filhos, pois eles nos ensinam a amar. E o amor é a única arma contra o vazio existencial da luta diária pela sobrevivência, da necessidade de grana e de todas as outras “necessidades” fúteis que sufocam a utopia de liberdade.


Ser pai é perder um pedaço dessa liberdade utópica. Mas também é ganhar em troca a libertação de sentimentos novos e profundos. Uma troca justa. Só os ingênuos ou ególatras mimados acham que podem ter tudo. Ninguém pode. A vida é repleta de encruzilhadas e não dá para se dividir em vários para caminhar em todas as direções até encontrar o caminho “certo”. Os filhos indicam um caminho que nunca falha, que sempre leva a algum lugar interessante, a alguma recompensa.


Nada é mais recompensador que assistir à evolução dos filhos, dia após dia, e receber seu carinho ou ouvir uma declaração de amor despretensiosa, daquele tipo quando o moleque vem se esgueirando sorrateiramente até se encostar a você, puxar a barra da sua camisa e soltar, olhando no fundo do seu olho: “eu te amo, papai”.


Ser pai é compreender e entrar definitivamente na essência do fluxo da vida. Você enfim percebe que tudo o que acontece de banal ou grandioso nada mais é que a materialização da natureza humana, a lenta descoberta daquilo somos: minúsculas engrenagens de um grande ciclo ininterrupto de vidas e mortes, inícios e recomeços. Afinal, quem é pai também é filho, e será (ou já é) avô.


A vida, que às vezes parece tão complexa e indecifrável, acaba se resumindo a uma fórmula simples, ensinada pela paternidade. Uns chegam e outros desaparecem, mas se você é pai, na hora de partir vai seguir adiante (ou encarar o fim de tudo) com a serenidade de quem sabe que a vida continua.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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