Por: Fala, Zanfra!
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Meus ovos

12/12/2018

Quando era adolescente e cursava o ginasial – fase que depois se transformaria no período da quinta à oitava série do primeiro grau – eu cumpria um horário escolar ingrato e só conseguia almoçar lá pelas três da tarde. Para compensar, principalmente porque a adolescência é considerada fase de crescimento, eu cobria todos os dias meu prosaico prato de arroz e feijão com três ovos fritos. Todos com as gemas invariavelmente tremelicantes, de tão moles.

Era uma delícia meter o garfo por cima da cobertura gentilmente providenciada pela galinha, rasgando lateralmente para aumentar a capacidade de vazão, e acompanhar aquele caldo amarelo – não por acaso, de cor amarelo ovo – escorrendo por entre os grãos de arroz e feijão que vinham logo abaixo. Faço isso até hoje, não todos os dias e não com três ovos, mas com a configuração da gema obrigatoriamente mal passada e escorrendo por sobre o arroz.

Pois descobri nesta quarta-feira que isso é proibido!

E não apenas nos países do Primeiro Mundo. Ali mesmo em São Paulo os restaurantes são proibidos, por uma norma da vigilância sanitária, de servirem ovos com gemas moles. Diz o texto da portaria, de 2013: “São proibidas as preparações onde os ovos permaneçam crus ou mal cozidos. Os ovos cozidos devem ser fervidos por sete minutos e os ovos fritos devem apresentar a gema dura.”

Tomei conhecimento disso ao ler a coluna Cozinha Bruta, que o jornalista Marcos Nogueira – também ele um fã incondicional da gema mole – mantém na Folha de S. Paulo. Segundo ele, que teve seu pedido de ovo mal passado recusado num restaurante em Berlim, a medida é uma prevenção contra a salmonela, uma bactéria que vive no trato digestivo dos frangos e, em condições propícias (propícias para as bactérias), tende a proliferar e provocar diarreia violenta e até a morte em quem a consumir.

Essa “condição propícia” pode ser uma maionese caseira que fica exposta muito tempo ao calor, por exemplo. E não é raro a gente ler notícias de pessoas que passaram mal após consumirem, na melhor das intenções, maioneses também feitas na melhor das intenções.

Eu lamento, porém, as boas intenções da vigilância sanitária, mas vou ser um fora da lei, porque, como diz o próprio colunista “ovos de gema mole são uma iguaria; ovos de gema dura são intragáveis”. Tenho histórico para assumir essa posição marginal: além desse período em que consumia diariamente três ovos fritos, passei anos de minha fase adulta tendo como café da manhã um suco de laranja e um ovo quente, desses que a gente ferve durante apenas um minuto e toma de colherinha...

E nunca uma salmonela se meteu a besta comigo!

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