Por: Cronicidade
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Na piscina

22/01/2014

A vida poderia ser bem mais fácil se as pessoas não se esforçassem tanto para inventar problemas. Soube ontem de uma história prosaica, mas muito significativa, a respeito do mundo em que vivemos. Ocorreu num condomínio residencial do bairro (nobre) do Parque São Jorge, em Florianópolis, e ilustra bem por que caminhamos a passos lerdos em direção a lugar nenhum.


Domingo, manhã perfeita de sol, calor de rachar. No playground do condomínio, moradores se refrescam na piscina. A criançada se esbalda na água. São cinco crianças, com idades de um a dez anos, todas acompanhadas das mamães ou das babás. As mamães curtem suas espreguiçadeiras e iphones. Sem filas para a praia, sem estresse – no sagrado recesso do condomínio fechado.


A filha do porteiro de plantão tem um ano de idade. Ela está com a mãe esperando o fim do expediente do pai para voltarem juntos para casa. As duas passeiam sorrateiramente pelos cantos do playground, quando a menininha vê a piscina. As crianças brincando, felizes. A água refrescante. A pequena ainda nem sabe falar, mas pede para a mãe, por meio de gestos ansiosos, para entrar na piscina. A mãe nega. A criança insiste. A mãe vai falar com o marido para saber se pode. Não, não pode. O regulamento é claro: proíbe o ingresso na piscina de visitantes não registrados pelos moradores.


A criança chora porque agora sabe, ainda que confusamente, o que é um regulamento. A síndica passa pela portaria, vê a choradeira e pergunta o que houve. Lamenta muito, mas regras são regras. Sugere que o porteiro pegue uma bacia com água para a menina se refrescar. A mãe enche uma bacia e a coloca ao lado da piscina onde brincam as crianças autorizadas.


A filha do porteiro se refresca na bacia, enquanto observa as outras crianças mergulharem e lançarem água para o alto. Não entende por que a sua piscina é diferente. Não há como entender. Ela tem só um ano.


No entanto, à sua volta, tudo transcorre normalmente. A única moradora inconformada com a estupidez da situação não intervém para a menina entrar na piscina. As outras moradoras não dão a mínima importância para isso. Uma delas pensa: “só faltava essa, pagar R$ 500 de condomínio todo mês para dividir a piscina com filho de empregado”. Ninguém vislumbra a possibilidade de tomar uma atitude, mandar o regulamento para o espaço e abrir uma exceção, pelo menos uma exceção. Há momentos em que nenhuma regra, ainda que seja uma lei ou a própria Constituição, pode se sobrepor a um mínimo senso de humanidade. Deveria ser assim, mas não é. Regras são regras.


Agora a menina não chora mais. Parou de incomodar. O sossego voltou. Só se você olhar bem nos olhinhos dela pode ver a tristeza e a incompreensão. Faz apenas um ano e pouco que ela saiu do ventre da mãe. Mas ninguém quer saber o que sente a filha do porteiro. Ela não está autorizada a entrar na piscina, o regulamento não deixa dúvidas. Uma das mamães-condôminas posta no face uma foto da sua maravilhosa piscina, tomando cuidado para tirar do enquadramento a bacia com a criança pobre. “Vida boa”, ela compartilha.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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