Por: Cronicidade
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Na trilha

29/07/2013

O domingo de inverno amanheceu disfarçado de verão, com um céu que convidava para a rua. Segui o chamado e resolvi me embrenhar na mata. Às 11h deixei o carro no trapiche do Centrinho da Lagoa e caminhei em direção ao Canto dos Araçás. Meia hora depois eu atravessava o portal que demarca o início da trilha para a Costa da Lagoa. Duas moças bem vestidas estavam paradas ali, esperando alguém. Passei por elas e mergulhei na sombra da floresta.


É bom caminhar sem qualquer compromisso à sua espera e sem hora para chegar, apenas ouvindo o ruído das pedrinhas e das folhas secas esmagadas sob a sola do tênis. Caminhei em silêncio pensando em nada, apenas deixando o corpo trabalhar no modo automático, um passo após o outro. A quietude da mata era entrecortada o tempo todo pelo tec-tec-tec monótono do motor das bateiras. Uma lancha também passou perto da margem rompendo a trilha sonora habitual com uma música eletrônica nervosa: jovens ricos numa festinha itinerante pela Ilha.


Segui em frente saltando córregos e pedras, subindo e descendo no terreno acidentado. Cumprimentei um cãozinho solitário, ele respondeu com um ganido triste. Desconfiado, na dúvida se me seguia ou não, ficou me olhando até eu sumir na trilha. Logo adiante cruzei com um casal e seus dois filhos pequenos. O menor não tinha quatro anos e perguntou à queima-roupa, olhando bem nos meus olhos: “oi, quem é você”? Claro que ficou sem resposta. Nem que eu me preparasse com 100 anos de antecedência conseguiria responder a esta pergunta, que dirá assim, pego de surpresa numa quebrada da Costa da Lagoa.


Em outra esquina do caminho, passei pelo Sobrado da Dona Loquinha, uma construção do século XVIII com as janelas e portas lacradas por tábuas de madeira, suportando o abandono e a corrosão do tempo. Um reggae ecoava numa casa próxima. Um pássaro vermelho pousou perto de mim e ficamos nos observando por alguns segundos. Mais pedras e córregos até chegar a outro núcleo de povoamento. Cheiro bom de comida, som de talheres, hora do almoço. Nos fundos de uma casa, uma nativa septuagenária colocava as panelas limpas para secar sobre uma grande pedra. Aproveitava para sentir o afago dos raios do sol na pele curtida.


Faltava pouco até a Vila, onde se concentram os restaurantes e a cerveja gelada, recompensa para quem chega andando, ou navegando. Ainda passei por um barco em construção, o esqueleto de madeira sobre dois grandes cavaletes improvisados.


Três meninos surgiram na trilha carregando brinquedos e um pote cheio de paçoca. Conversavam sobre suas vidinhas e suas expectativas para o domingo sem escola. Um deles era deficiente. Tinha dificuldades para andar e se comunicar. Um colega, impaciente, arremedava seu jeito de falar. Uma menina de uns nove anos, que ia à frente do grupinho em sua bicicleta, fez meia volta para dar orientações aos meninos. Foi tão incisiva sobre os cuidados que os outros dois deveriam dispensar ao deficiente que logo o arremedo deu lugar à gentileza. E seguiram todos em frente, puros e sem mágoas, sob o comando daquele projeto de mulher zelosa e mandona.


Mais à frente, perto do bem cuidado posto de saúde, passei por uma moça entediada, sentada no banco em frente à lojinha de roupas da família à espera do cliente improvável. Um sujeito sério passou na direção oposta tateando a trilha com um cajado. Um gato pulou para um telhado, um rapaz de olhos bem vermelhos desceu o beco em direção ao ponto de parada dos barcos, um velho carrancudo espiava o movimento escorado no batente da porta de casa.


Entrei num restaurante, sentei na varanda que parecia flutuar sobre a Lagoa, bebi uma cerveja, comi um peixe, paguei a conta e desci para o trapiche. Fiquei por ali esticando as canelas e esquentando a carcaça no sol da tarde até a primeira bateira me levar de volta através do grande espelho d’água.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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