Por: Cronicidade
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Neve

23/07/2013

Neve na Grande Florianópolis é mesmo um fato insólito. Para os céticos e entediados, trata-se apenas de um raro fenômeno meteorológico. Para os mais sensíveis àquilo que se oculta por trás do óbvio, a neve reveste-se de poesia. Escrever sobre a nossa neve, porém, é um desafio ao lugar-comum. Como olhar para o cume branquinho do Morro do Cambirela ou para as colinas de Rancho Queimado cobertas de neve e não imaginar uma paisagem europeia? Como não perceber o império da natureza sobre nós, pequenos bichos sujeitos ao seu enorme poder? Difícil escapar do óbvio diante de imagens tão raras.


Além de escapar do lugar-comum, o cronista tem de superar também os dedos duros e frios para conseguir digitar alguma coisa. Enquanto escrevo, recorro a uma dose de uísque e ao blues do Steve Ray Vaughan, na tentativa de obter um pouquinho de calor. Funciona. Olho pela janela e vejo o mesmo morro de sempre, com as cores de sempre, as árvores de sempre. Adoro o morro que vejo da minha janela, ainda que ele nunca mude, mas agora eu preferia ver o Cambirela nevado. Talvez ali estivesse a chance de captar alguma poesia e evitar o óbvio. Mas aqui perto não há neve, só um frio de rachar. E os meus dedos gelados.


Quando vi as fotos da neve, fiquei com vontade de saber, por exemplo, a reação dos moradores de Rancho Queimado ao fenômeno. Será que os morangos resistiram? Talvez os morangos valham menos que uma lembrança eterna, mas isso depende dos negócios, ou de como cada um enxerga a vida e seus fenômenos, raros ou corriqueiros.


Por enquanto o frio se impõe, com ou sem neve. As ruas estão desertas à noite. Quem tem casa corre a se proteger. Quem não tem, pode acabar esquecido. Penso no andarilho que morreu de frio, uma morte tão brutal quanto um linchamento injusto. Ninguém morre tão só quanto um andarilho esquecido e congelado. E aqui termina a chance de extrair poesia desse frio congelante.


Aqui também termina essa crônica sem poesia, enquanto espero minhas crianças chegarem da rua para nos aquecermos mutuamente em mais essa noite gelada. Muito melhor que ver neve ou ler um poema.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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