Por: Fala, Zanfra!
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No bico do corvo

10/06/2019

Que a morte é coisa certa não resta a menor dúvida! Que ninguém fica para semente e que do pó viemos e ao pó retornaremos todo mundo concorda!

Mas ninguém encara a morte como se fosse realmente um fim em si mesmo. Nós a tratamos como uma espécie de abstração: sim, ela vai acontecer... mas um dia, quem sabe, num futuro distante, quando já estivermos bem velhinhos. Ninguém fica pensando na morte dia e noite, porque quem pensa na morte não tem tempo para viver!

A não ser que, por alguma circunstância não prevista, a morte deixe de ser encarada como um conceito abstrato e passe a fazer parte de sua vida como algo palpável, próximo, quase um compromisso anotado na agenda.

Quando isso acontece, meus amigos, nem queiram saber!

Aconteceu agora há pouco comigo. Diante da suspeita de um câncer de pele, tive as duas semanas mais angustiantes de minha vida. Desde a consulta até o resultado da biopsia, vivi um período que variava do conformismo à depressão, do pragmatismo ao abandono de qualquer ideia de redenção.

Foi uma experiência dramática. Saber que a morte é inevitável é uma coisa; pensar que você está para morrer é algo totalmente diferente!

O resultado felizmente desmentiu meu pessimismo, mas é difícil descrever a dor precoce por uma morte imprevisível.

Tenho de esclarecer que meus temores não brotaram  sem fundamento: meu pai morreu em consequência de um melanoma, depois de três meses devastadores; eu mesmo tive o precedente de um tumor na próstata, há dois anos, debelado após cirurgia.

Como o câncer é traiçoeiro e muitas vezes silencioso, nunca se sabe se ele não continua à espreita! Principalmente se você tiver um antecedente e um precedente...

Peguei-me nessas duas semanas em duas vertentes: uma, lamentando o que perderia ao morrer: meu escritos, o crescimento dos netos, o amor da família, as pizzas, as caminhadas, os cheiros e sabores; outra, planejando burocraticamente como seriam meus últimos dias, incluindo o ocaso de preferência em hospital, os ritos póstumos preparatórios e a cremação. Não queria deixar nada pendente, para não dar trabalho depois de morto aos que ficassem... Cheguei a planejar um novo livro, que escreveria enquanto tivesse condições físicas e/ou mentais durante a espera do desenlace e que poderia ser interrompido abruptamente, como o segundo volume de 'Solo de Clarineta', de Érico Veríssimo.

A agonia acabou, exatos dezoito dias depois de começar, quando, no dia marcado, peguei o resultado do exame no laboratório e segui até o consultório médico. Até chegar à consulta, senti-me como um condenado a caminho do cadafalso. O envelope fechado na mão, porque tinha medo de abri-lo. Foi a médica quem leu o laudo e disse que ainda não seria desta vez. O que eu pensava ser um melanoma – na forma de uma pinta na cabeça que se transformara em verruga – não passava de uma ‘queratose seborreica acantótica’, onde não foi detectada malignidade.

Foram duas semanas de sofrimento à toa. Mas, se pegar ao pé da letra, ‘à toa’ é uma expressão que neste caso soa bem. Passado o susto, acho que a experiência até que não me afetou muito! Não vou chegar ao cúmulo de dizer que nasci de novo! Mas com certeza passei a ver com outros olhos minha presunção de imortalidade.

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