Por: Fala, Zanfra!
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O gatinho do Lancelot

02/01/2018

Não duvide, caro leitor, da determinação de um labrador quando seu faro aguçado  indicar-lhe uma presa! Não por acaso ele é o cão preferido de dez entre dez departamentos de narcóticos para farejar qualquer quantidade de droga ilícita envolta seja lá por quantos meandros de disfarces odoríferos!

Além de confiar no seu taco – ou melhor, no seu privilegiado senso olfativo – ele é teimoso e obstinado. Mais ou menos como nós mesmos, quando temos certeza de uma coisa e batemos o pé até confirmarmos triunfalmente nossa teoria.

Pois conhecíamos essas qualidades do bicho, mas não havíamos tido a oportunidade de confrontá-las pessoalmente, até as vésperas deste 2018 que ora estende lentamente suas patinhas. Lancelot, nosso labrador cor de suspiro flambado, é o personagem desta história ‘baseada em fatos reais’, como se os fatos não fossem reais por si só.

Aconteceu em 29 ou 30 de dezembro – e o caro leitor nos perdoe a imprecisão, pois a época de festas nos deixa a nós todos meio extemporâneos. Mas estávamos pela metade da manhã quando um miado dolente brotou de uma fonte indeterminada, no corredor da garagem, entre quatro carros estacionados e uma espécie de parede natural formada por uma sequência de xefleras majestosas.

A primeira impressão foi de que o lamento felino escorregava pelas folhas das xefleras, proveniente talvez do muro que nos separa da casa do vizinho. Primeira impressão para nós, claro: Lancelot já havia definido outro alvo – o Honda City cinza chumbo – e franziu o cenho, ergueu as orelhas e não havia quem o tirasse de lá. Agitado, rodeou o veículo, olhou por baixo dele pelos quatro lados, cheirou por dentro dos para-lamas dianteiros e repetiu toda a operação umas quantas vezes.

Tentamos mudar-lhe o foco. Afinal, era improvável que um gato houvesse conseguido invadir um carro trancado. Para desviar sua atenção, chegamos a sacudir os galhos da xeflera – fonte mais verossímil para os miados – mas ele não nos deu a mínima! Depois de circundar o City umas quatro ou cinco vezes, empertigou-se diante do radiador do carro e começou a latir com veemência. Não havia ordem ou apelo choroso que o fizesse calar-se.

Nossa única opção era mostrar-lhe que não poderia haver gato miando dentro do veículo. Buscamos a chave, abrimos a porta e puxamos a trava do capô do motor. “Só falta ter um gato aí dentro...”, eu ainda disse, incrédulo, antes de levantar a tampa!

***

Era um gatinho amarelo, que não devia ter um mês de vida. Estava aninhado sobre a bateria e pareceu olhar-nos como seus salvadores, como alguém que o ajudaria a livrar-se de uma enrascada: nós não sabíamos como ele tinha entrado e ele provavelmente não saberia como sair.

Não tínhamos a menor intenção de iniciar uma ninhada de gatos e portanto tivemos de abandoná-lo, sem qualquer sinal de arrependimento, numa esquina distante de casa. Sua história para nós terminou naquele instante. Não sabemos o que foi feito dele.

O problema é o Lancelot: nada nos tira a impressão de que ele sempre nos olha com cara de quem diz “eu não falei que tinha um gato ali?”

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