Por: Cronicidade
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O menino e a lua

25/08/2013

Estou tentando pegar o hábito de fugir dos caminhos habituais. É um pouco difícil. Se você se distrai, acaba tragado pela correnteza da rotina e não consegue sair mais. Como um hamster correndo na rodinha da gaiola, sem sair do lugar, ficamos condicionados a repetir sempre os mesmos trajetos. Casa-trabalho-escola-casa, ou algo semelhante. E a vida vai passando nessa modorra.


Na quinta-feira, aquele lindo dia de verão plantado no meio do inverno, resolvi levar meu filho de 5 anos para ver a lua cheia nascendo. Na volta do trabalho, depois de pegá-lo na escola, voltávamos para casa pelo “caminho nº 2”, que contorna o Centrinho passando por um recanto escondido da Lagoa, no lado sul. A noite já caíra, mas o calor convidava, quase obrigava, a um mergulho. Faltou o desapego necessário para deixar o pudor de lado e entrar na água de cueca mesmo, sem toalha para se enxugar depois. Seguimos adiante quando sugeri a lua. O moleque é romântico e gostou da ideia.


Paramos o carro na Praia Mole e descemos por uma das entradas, enfrentando a escuridão e a insegurança. Tem horas que é preciso deixar os receios de lado, se você não quiser se tornar um morto-vivo. Chegamos a um bar fechado, a lua ainda não tinha aparecido. Ficamos por ali conversando, na expectativa, enquanto acompanhávamos as luzes dos barcos e dos aviões brilhando na imensidão negra do céu e do mar.


Alguém surgiu com uma lanterna e nos deu boa noite. Não dava para ver a cara do sujeito. Cogitei um assalto e apertei o moleque debaixo da minha asa. Mas era o rapaz que cuidava do bar fechado. Puxou papo e disse que acenderia a luz externa. Agradeci e deixei o moleque à vontade para brincar no labirinto de móveis empilhados, um olho nele e outro no horizonte.


Vendo-o se divertir com tão pouco, lembrei os longos verões da minha infância e adolescência em Barra de São João, uma cidadezinha mágica situada no Litoral Norte do Rio de Janeiro. Eu não precisava marcar no calendário os dias de lua cheia. Ela sempre me surpreendia enquanto eu estava na rua ou na praia, surgindo sem aviso de dentro d’água, sobre as árvores ou sobre os telhados das casas. Não havia monstros de concreto obstruindo a paisagem, e ela sempre aparecia com sua circunferência enorme irradiando uma luz amarela ofuscante. Era como se eu entrasse num sonho.


A lua na Praia Mole demorou a nascer. Eu estava ansioso, meu filho nem aí. Brincava de fazer montinhos de areia, tentava escalar uma cadeira de salva-vidas, explorava o território noturno. Falava sobre os planetas e as estrelas. Eu olhei bem para o alto e vi uma estrela cadente. Expliquei que as estrelas riscavam o céu quando morriam. Ele ficou pensativo. Deve ter se lembrado da vovó que “virou estrelinha”. Agora descobria que as estrelas morriam. Depois de refletir sobre o assunto, quebrou o silêncio:


“Papai, não quero nunca ficar velhinho”...


Melhor nem responder... Sossegamos um pouco, cada um pensando na sua vidinha. Ele também ficou ansioso, com vontade de ir para casa. Fazia uma hora que esperávamos a lua. Resolvemos contar até 100. Se ela não aparecesse, iríamos desistir.


No 67 surgiu uma nesga brilhante no horizonte. Coloquei-o sentado sobre uma cerca, abracei-o e disse para prestar atenção. Era a lua cheia. A lua que vinha do fundo do mar e passava a noite deslizando pelo céu até sumir atrás do morro. Emergiu ao lado da Ilha do Xavier, num tom fraco de laranja, que aos poucos foi ganhando força. O moleque ficou só olhando. Comentou de repente:


“Eu queria pegar um barco e ir até lá pra encostar na lua”.


“Se um dia tiver um barco, eu te levo”.


Pausa.


“Papai, como é que o mar cria a lua”?


“Não sei, filho. Tem que perguntar pra um astrônomo”...


Acho que ele percebeu que eu não falei aquilo a sério, mesmo já sabendo mais ou menos o que faz um astrônomo. Deve ter sacado que a poesia de certos momentos prescinde de explicações científicas. Que nem tudo precisa de uma resposta.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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