Por: Cronicidade
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O momento eterno

10/11/2013

Sábado fui ao casamento de um querido colega de trabalho. Uma brisa agradável soprava do mar na noite calma de Santo Antônio de Lisboa. Cheguei atrasado à Igreja Nossa Senhora das Necessidades, no exato instante em que o padre, muito progressista, garantia aos presentes que tomar uma cervejinha não era pecado, que todos deviam curtir a vida, mas dentro dos limites impostos pelo bom senso...


Fiquei de pé ao lado da porta de entrada escutando o padre, observando os noivos, pensando no significado daquele momento. Acho que sou um cara romântico, no sentido de enxergar algum brilho no monturo da realidade, mas nunca fui capaz de acreditar em juras de amor “até que a morte os separe”. Por uma questão de princípios, esse discurso sempre me pareceu mais uma condenação que uma bênção. Mas respeito quem acredita. Essa convicção não me impedia, enquanto assistia ao casório, de me sentir jubiloso diante dos sonhos e da felicidade genuína do jovem casal.


O importante ali não era o discurso pronto do padre, nem “o longo e tortuoso caminho, cheio de alegrias, mas também de privações”, que esperava os nubentes. A tradicional festa após a cerimônia religiosa, as assinaturas no livro da igreja, as fotografias, os vestidos e ternos, penteados e maquiagens, nada disso tinha a menor importância. Naquele momento, só o que importava era... aquele momento!. Pois, como todos os grandes momentos, continha uma pureza que não pode ser repetida.


Terminadas as promessas de amor eterno e os trâmites burocráticos, os noivos deixaram a igreja em êxtase, ovacionados pela plateia. Ao passar pela grande porta principal, enxergaram diante de si o mar profundo, com toda a grandeza e todas as possibilidades que essa imagem pode oferecer.


Enquanto eles desciam a escadaria rumo à nova vida, não pude deixar de pensar no significado desse antigo ritual. Para a maioria das pessoas, pouca coisa é digna de ser mencionada no curto intervalo entre o nascimento e a morte. Certamente o casamento é uma delas. Para o casal, é inegável a magia do momento. Na sua ótica, o resto do mundo passa a ser um detalhe sem importância. Só por isso já vale a pena.


Se, como dizem por aí, a felicidade não existe, mas sim momentos felizes, então nada poderá apagar o que eles sentiram nessa noite de sábado. E a minha intuição, ao olhar nos olhos deles, me garantiu que ainda terão muitos momentos felizes.


Desejo, do fundo do coração, que essa felicidade que eles sentem agora permaneça viva até o fim.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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