Por: Cronicidade
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O Primeiro Dia

21/07/2013

Solução Final em curso, comandante. Boa sorte.


Positivo, SD. Que Deus nos proteja.


Comandante?


Sim.


Posso levar alguém... Comandante?


Falhou o sinal da operadora telefônica. SD ainda teve tempo de ouvir um fragmento de gargalhada antes de cair fulminado por uma descarga elétrica.


Segundos depois, dezenas de homens armados com fuzis e metralhadoras passaram por cima do cadáver estirado na entrada do Morro do Mocotó. Ganharam o asfalto, espalhando-se pelas avenidas Mauro Ramos e Gustavo Richard. Havia mais corpos caídos nas ruas, praças e calçadões do Centro. Muitos carros parados, alguns batidos. Gente atônita perambulando. Tudo em desordem, como se antes ordem houvesse...


Um grupo de mulheres e homens nus improvisava uma orgia em frente ao portão principal da antiga penitenciária da Trindade. Rajadas de metralhadora silenciaram os gemidos frenéticos. Do silêncio emergiram urros invisíveis. Pareciam vir das celas vazias à espera da demolição.


O grupo armado seguiu em frente, tomado de uma espécie de torpor, atirando em tudo o que se movimentava. Não havia sinal de ódio nos semblantes assassinos; apenas uma fria resignação.


De pé no teto do camburão com a sirene ligada, em plena Osmar Cunha, um policial gritava ordens sem nexo e atirava para o alto com um velho três-oitão. Guardou a última bala para a própria cabeça. Tombou, e na calçada ao seu lado, em frente ao Ceísa Center, espatifou-se um elegante cidadão de meia-idade – sapatos lustrados, terno e gravata impecáveis. Segurava uma garrafa de uísque e uma maleta, que se abriu com o impacto espalhando maços de notas de cem dólares.


De repente, em meio ao caos, emergiu a noite. O sol desapareceu e um vento gelado soprou da Baía Norte varrendo tudo, trazendo para baixo uma enorme e densa nuvem preta com cheiro de enxofre. Os gritos se intensificaram. Ecos aterradores ressoavam dos edifícios e repartições públicas. Cada vez mais pessoas despencavam das janelas.


Os morros começaram a desbarrancar e se desfazer em grossas camadas de terra, entulho e lixo. Milhares de corpos e barracos cobriram as ruas, misturando-se a outros milhares de corpos bem vestidos que jaziam diante dos cartórios e centros comerciais, do Fórum e da Assembleia Legislativa, dos teatros e estacionamentos, palácios e mercados. Tudo agora vazio, inútil. Morro e asfalto enfim juntos. Sem vida. Câmeras de segurança registravam tudo para uma improvável posteridade.


Um vira-lata coberto de barro passou entre os escombros farejando a morte. Escutou um choro sussurrado, distante, parou e ergueu as orelhas. Correu até um carro estacionado diante da Catedral. Encontrou um bebê vivo no banco de trás. Passou por cima de uma defunta atravessada entre o banco do motorista e a porta aberta. Sentou-se ao lado da criança, lambeu-lhe as lágrimas e esperou.


O silêncio e a escuridão caíram definitivamente sobre a cidade. O mundo parecia ainda existir graças aos últimos resquícios de som e movimento: o assovio do vento sul e toneladas de papéis voando em todas as direções. Contratos, certidões, escrituras de imóveis, relatórios, dossiês, cartas, dinheiro, notas fiscais, um ou outro bilhete de amor. Tudo lixo.


A nuvem dissipou-se lentamente, mas a noite permaneceu. De um cais clandestino atrás da Ilha do Campeche, um submarino submergiu levando consigo um pequeno grupo. A matéria-prima estritamente necessária à fundação de uma nova sociedade: cinco políticos de alto escalão, dois generais, um desembargador, um médico, um chef de cuisine e dez prostitutas de luxo, nível universitário. Levavam consigo víveres em quantidade suficiente para alguns meses de sobrevida. Até que o sol voltasse a brilhar.


Ergueram-se taças de champanhe.


Parabéns, senhoras e senhores. Solução Final executada com sucesso. Desejo a todos uma excelente viagem.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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