Por: Fala, Zanfra!
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O ratinho ninja

30/08/2017

Não sei que nome ele recebeu na pia batismal, mas para nós passou imediatamente a chamar-se Tom Cruise – porque não havia outro nome que fizesse jus a um camundongo que teve a capacidade de enfrentar sozinho, e vencer, todas as edições da Missão Impossível! Ou era o próprio Tom Cruise ou era a versão compacta de algum guerreiro ninja que tomou por via parenteral a essência da milenar arte marcial!

De que outra forma explicar como uma coisica daquele tamanho tenha conseguido driblar por cinco vezes – eu disse cinco vezes! – os mecanismos sensíveis e mortais de uma ratoeira. Por cinco vezes ele conseguiu servir-se das iscas sem desarmar a armadilha, o que lhe confere o grau de supremo estrategista. Da sexta ele não escapou, mas isso é um assunto para daqui a pouco.

Imaginei-o suspenso por um sistema de roldanas, para retirar o queijo sem liberar a travessa que retém a mola da ratoeira, ou vestido de quimono preto e dando duas ou três piruetas antes de resgatar a isca e cair silenciosamente do outro lado. Cheguei a visualizá-lo como Indiana Jones, calçando com uma estaca o prato que sustenta o alimento – e ao mesmo tempo serve de gatilho para o disparo do martelo – mas minhas explicações nunca passaram de arroubos fantasiosos.

Minha irmã agrônoma chegou com uma teoria não de todo absurda, embora também fantasiosa: depois de mais de 120 anos sendo vitimados pelo invento de Hiram Stevens Maxim, não seria natural que as novas gerações de roedores domésticos aprendessem como evitar sua letalidade?

Mas, enquanto a gente fantasiava, ele ia se fartando: há sinais de sua passagem em pacotes de bolacha, embalagens de leite longa vida, caixinha de creme de leite e até no pacote de pó de café. Minha rotina a cada dia era verificar a ratoeira intacta... e sem a isca.

Depois da terceira tentativa, pensei em usar uma armadilha alternativa – um papelão gomado que mantém coladas as delicadas patinhas do bicho, impedindo que ele fuja – mas desisti porque esbarraríamos numa questão de cunho emocional: Tom Cruise estaria vivo, à minha mercê, olhando para mim com aquela carinha de ser indefeso que estava só de passagem... E, ainda que estivesse vestindo uma touquinha ninja que lhe escondesse as feições, não teria eu a frieza necessária para dar fim à sua vidinha!

Na terceira e quarta tentativas, estávamos alimentando nosso pequeno algoz com parmesão montanhês da Gran Mestri, o que podia dar ao ratinho a falsa impressão de que gostávamos dele, já que o estávamos tratando tão bem. Na quinta, baixei o nível: aceitando sugestão de um vizinho, molhei uma bolota de Cheetos de queijo e a coloquei como isca; segundo o vizinho, aquilo virava uma pasta de difícil remoção, o que acabaria forçando o disparo da ratoeira.

Como tivemos a sexta tentativa, acho que dá para perceber que a pasta de Cheetos também foi parar naquela barriguinha voraz. Mas foi aí que eu provei ser pouca coisa mais inteligente que o camundongo: se ele estava conseguindo resgatar as iscas com tanta facilidade, por que não prendê-las à ratoeira e dificultar a retirada?

O próximo naco do suculento queijo montanhês foi devidamente amarrado à plataforma da armadilha com linha branca, e hoje de manhã descobrimos que ele não usa quimono preto e que não se parece nem de longe com Tom Cruise. Achei-o também um tanto magro para a quantidade de comida que roubou na semana, o que me fez temer que ele fosse apenas um dos membros de uma grande quadrilha.

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