Por: Cronicidade
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O valor da arte

01/02/2014

Viver de arte é um ato heroico em qualquer lugar do mundo, especialmente no Brasil. Numa sociedade utilitarista como a nossa, de consumismo selvagem, fundada em aparências, a arte é a última das preocupações do cidadão médio. Ele paga feliz da vida 40 mil reais por um carro e reclama porque o ingresso do cinema custa 20. Pagar 40 reais num livro então... “muito caro”!


A arte alimenta a alma, por isso é vista como supérflua pela enorme manada de consumidores cujo sentido da vida é medido em cifras e bens. A grande maioria das pessoas nasce, vive, trabalha e morre para “construir um patrimônio”. Já o artista é aquele que nada contra a corrente, que questiona o modo como se vive, que enxerga além do cotidiano mesquinho. Falo do artista de verdade. O marginal, o criador.


Quem nasceu para ser artista sabe bem o que significa o ritual de informar aos pais que irá viver de arte. A mãe é sempre a primeira a torcer o nariz e exigir que o filho trate de entrar numa faculdade e passar num concurso público... O pai pergunta o que ele vai fazer para ganhar dinheiro. Afinal, arte não é trabalho...


Penso nisso agora porque nas últimas semanas fui abordado nas ruas da cidade por dois jovens que sonham em viver da sua arte. Um deles vendia um livreto artesanal com poemas de sua autoria por um real numa sinaleira da Avenida Beira-Mar Norte. O outro divulgava um espetáculo musical/teatral que seria encenado quase clandestinamente num sobrado da Travessa Ratclif, no Centro. Preço do ingresso: um real.


Ambos os artistas são ainda muito jovens. Que tenham força para insistir nesse caminho, que é duro, muito duro. É preciso ter couraça forte para enfrentar a ignorância e o desdém. Torço para que consigam viver da arte, da sua arte, ainda que com pouco dinheiro, mas com orgulho e alegria.


Como diz o protagonista do filme Quincas Berro D’água (inspirado na obra de Jorge Amado): “é melhor poesia ruim do que nenhuma poesia”. A propósito, quem define o que é bom ou ruim em matéria de arte? Um intelectual incapaz de produzi-la? A palavra de um acadêmico jamais deveria inibir o verdadeiro artista, pois é desprovida do essencial: a intuição e a paixão.


Os artistas sem reconhecimento são os heróis marginais, mas eles sempre existirão, pois sem arte genuína a cegueira tomaria conta do mundo.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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