Por: Cronicidade
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Pesadelo sobre rodas

24/06/2013

Ao longo dos últimos anos, a Grande Florianópolis sucumbiu ao destino das belas regiões do planeta administradas seguidamente por gente sem o zelo e o comprometimento necessários ao bem comum. Seus habitantes foram lentamente perdendo espaço para as cobiçadas máquinas sobre rodas, estrelas absolutas da vida moderna, até serem completamente dominados por elas. Não se trata apenas de domínio territorial, em que os carros têm preferência sobre as pessoas na ocupação do espaço. Trata-se de domínio psicossocial, se assim pode ser chamado, em que os carros se tornaram o centro de tudo. Efeito colateral do consumismo cego: um objeto comandando a sua existência. Além disso, o trânsito infernal é causa de embates diários na disputa (perdida) por espaço e tempo. Cada vez mais as vias públicas se assemelham a campos de batalha. A hostilidade ao volante é crescente.

Não ouse andar distraído pela rua, pois você pode virar um alvo potencial para o inimigo protegido por seu “blindado”. Sem a proteção da carroceria, inofensivos feixes de carne e ossos podem virar farelo – e estatística oficial. Ou podem receber uma saraivada de xingamentos gratuitos por estarem andando ingenuamente pelas ruas, apreciando a paisagem ou arriscando a travessia na faixa de pedestres.
Se você estiver dentro do carro, viril e orgulhoso, continue acelerando para testar a potência máxima do seu brinquedinho preferido. Pise fundo até encontrar a UTI de um hospital, o Outro Mundo ou um processo criminal por homicídio ou lesão corporal. Ou então reduza a velocidade e se prepare para ser xingado de todos os palavrões possíveis pela manada de apressados.

Distraia-se por um segundo e espere a multa por excesso de velocidade chegar à sua casa, para alegria dos operadores de pardais.

Se estiver tranquilo e de bem com a vida, a despeito do cenário ameaçador, experimente pegar uma praia no domingo para relaxar após uma semana estressante. Prepare-se para encarar filas quilométricas na volta do passeio. Já não faz diferença se estamos no verão ou no inverno: a fila está sempre lá para estragar os dias bonitos.
Permita-se uma pausa na rotina. Namore um pouco no estacionamento da praia, sob a luz da lua, e termine a noite dentro do porta-malas, apavorado e sem dinheiro na conta corrente. Caso ainda esteja vivo.

Realize o seu desejo de andar sobre quatro rodas a qualquer custo e passe o resto da vida pagando o financiamento, os juros, o seguro, IPVA, combustível, manutenção. E, quando precisar, reze para não cair em oficinas desonestas.

Os carros tornaram-se os protagonistas de inúmeras histórias trágicas e mesquinhas. Eles estão no centro de conflitos e problemas. São os tanques de guerra modernos. Arapucas para os motoristas e pedestres incautos. Ainda assim, seguem povoando os sonhos do cidadão comum. Ninguém parece se dar conta de que os carros já dominaram o mundo, outrora um lugar razoável para se viver. Na ditadura automotiva, as pessoas que se danem. Que lutem para sobreviver entre roncos dos motores, nuvens de monóxido de carbono, radares, pardais, dívidas, homicidas e agressores em potencial.
Se o presente já é nebuloso, triste futuro aguarda esta bela região do planeta. Em apenas uma década, mais que dobrou o número de carros trafegando pelas vias da Grande Florianópolis. Não precisa ser um gênio da matemática ou uma sumidade do urbanismo para concluir que as coisas só tendem a piorar. Do poder público não se espera nada além de incentivos fiscais eternos para montadoras de veículos, discursos vazios sobre “mobilidade urbana”, concessões para operação de ônibus e terminais sem a mínima preocupação com o interesse público, projetos mirabolantes e inviáveis, autorizações suspeitas para mais e mais construções de grande porte em locais onde o trânsito já não suporta nem um parafuso a mais... Por aí segue o drama.

A saída óbvia seria investir pesado no transporte público, hoje caro e de péssima qualidade. Mas nada é feito para mudar esse quadro. Os administradores públicos vivem discursando sobre futuras novas obras faraônicas – mais pontes, mais elevados, estradas duplicadas – em vez de planejar e investir na qualificação do transporte de massa. Os motoristas também entram na espiral da inércia, pois, para a maioria, o que realmente importa é o status obtido com o carrão do ano – seu patrimônio, seu orgulho, seu afeto mais profundo. Todos querem desfilar suas máquinas reluzentes pelo asfalto exíguo. Quase ninguém abre mão do seu conforto e, principalmente, do status. É o que move a maioria das pessoas pela existência afora: acumular bens para mostrar que “venceu na vida”. Carros viraram sonho de consumo dos pobres, símbolo de ascensão da classe média e mostruário de uma vida de “sucesso” para os ricos. Está muito claro para onde caminhamos com o domínio dos carros sobre a qualidade de vida. O consumismo desenfreado empurra todos para o abismo e ninguém se dá conta.

Daqui a uns dez anos, você estará voltando para casa depois do trabalho, já acostumado a percorrer dez quilômetros em cinco horas, quando, de repente, chegará o instante do Grande e Definitivo Engarrafamento. Você vai olhar para os lados e perceber que nenhum carro se move há meia hora. Que passou mais uma hora e tudo continua parado. Até que o dia vai amanhecer e você se conformará em ir a pé para casa, cambaleando com a ressaca provocada pelo cheiro de gasolina e fumaça, pois nenhum carro jamais se moverá novamente, por absoluta falta de espaço.

Então, nesse momento mágico, um daqueles momentos em que a História da Humanidade ganha novos contornos, todos os cidadãos-motoristas com seus amados patrimônios sobre rodas – pobres, ricos, fuscas e pajeros – estarão enfim irmanados no fundo do poço de seus sonhos de consumo. Aprisionados para sempre pela Ditadura das Máquinas.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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