Por: Cronicidade
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Proezas de macho

25/01/2014

São de conhecimento geral algumas peculiaridades do espírito masculino. A mais marcante é a necessidade de se pavonear bancando o machão. Quem nunca ouviu um barbudo falando: “vou pegar todas essa noite” ou “você não aguenta me acompanhar na bebida” ou, ainda, “vou quebrar esse sujeito de porrada”? Seja por excesso ou escassez de hormônio, de acordo com a fase da vida, não importa – podemos simplificar colocando toda a culpa desse comportamento na testosterona, essa entidade secreta por trás dos ímpetos machistas. Talvez, pensando bem, esse fenômeno seja mais perceptível entre homens latinos. O fato é que o machão está sempre por aí.


Macho que é macho morre macho. Não importa que a fábrica de testosterona esteja quase fechada. A centelha do super-homem jamais se apaga.


Outro dia estava tomando uma cerveja num boteco perto do aeroporto, no Sul da Ilha. Sozinho. Exercitando minha capacidade de ver e escutar. Na mesa ao lado, havia quatro senhores que exalavam jovialidade depois da quinta ou sexta garrafa. Narizes vermelhos e egos destravados, dois deles começaram a discutir quem havia feito a maior proeza com uma aeronave nas mãos. Evidentemente ambos eram pilotos aposentados. Amavam tanto o ofício que resolveram passar o resto da vida a 500 metros do aeroporto.


Pelo que pude ouvir da conversa, pousos forçados (“na unha”) são mais comuns do que um leigo poderia imaginar. Em resumo, enfrentar a morte corajosamente foi a especialidade da carreira daqueles senhores. Coisa rotineira. E na conversa de bar, inspirados pelo álcool, eles reviviam aqueles momentos com audácia ainda maior.


No dia seguinte, enquanto eu fazia uma sessão de fisioterapia, testemunhei outro exemplo do velho machão aposentado. Cinco coroas, todos na casa dos 60, faziam seus exercícios enquanto tagarelavam sobre as mudanças por que o mundo passa ao longo do tempo etc. Quando a conversa arrefeceu, um deles, gaúcho macho, resolveu contar uma fabulosa façanha (perdão, mas aqui a redundância é necessária para ressaltar a façanha):


“Eu vinha andando pela calçada na Lauro Linhares quando, de repente, quase trombei com uma senhora. Quando fui desviar, meu chinelo prendeu num desnível. Rapaz... Eu ia quebrar a canela, mas pensei rápido. Eu tenho o pensamento bem rápido, sabe? E por sorte treinei judô muitos anos e ainda sei dar um rolamento. Num piscar de olhos, antes de bater a canela, dobrei o joelho, girei o corpo e dei o rolamento. Quando me levantei, a velha estava me olhando apavorada. Mas eu falei que estava tudo bem, e fui embora numa boa, sem um arranhão”.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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