Por: Fala, Zanfra!
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Que seria dos malandros se não nascessem os otários?

Estética - 10/11/2013

Um pequeno tema para discussão, neste domingo cinzento (pelo menos aqui em Florianópolis): o número de golpistas cresce por causa da repressão policial ineficiente, ou por causa do aumento de otários no mercado?

Meus vastos anos de trabalho na reportagem policial permitem-me que arrisque um palpite, nem por isso insuscetível de contestação, na segunda hipótese: não houvesse os trouxas, a quem os estelionatários iriam distribuir seus bilhetes premiados, suas curas miraculosas, suas sortes grandes de todo tipo?

Há uma espécie de ditado parido nas rodas da malandragem de antigamente que dá bem o tamanho do mercado: para cada otário que nasce, dois vigaristinhas já estão a postos no berçário, para dividir (ou tomar toda) a mamadeira. Pois eu entendo que esse quase axioma já vem perdendo sua atualidade, visto que a oferta de trouxas cresce mais que a produção de malandros especializados em ludibriá-los.

Não que o tímido contra-ataque da lei não tenha suas responsabilidades, mas o que a polícia pode fazer? Os golpistas são sutis, não andam fardados, não agem ostensivamente. Por isso, sua prisão tem de ser feita em flagrante, durante a execução do golpe. Mas que otário tem perspicácia suficiente para notar que está sendo enganado – e chamar a polícia – antes que o estelionatário já esteja longe?

Onze a cada dez policiais dizem que as vítimas de golpes são também golpistas em potencial, só que com um grau de percepção – eu diria de inteligência – bem aquém daquele que julgam ter. Para o otário, trouxa é o outro: é aquele pobre diabo que tem um bilhete premiado nas mãos, não sabe como chegar à Caixa Econômica para receber o prêmio e pode muito bem ser enganado pela esperta vítima e deixar o rico bilhetinho por aqui mesmo.

Há mais de meio século o mesmo e conhecidíssimo golpe do bilhete premiado é aplicado com eficiência; dá para explicar como tem gente que ainda cai nele?

Há também as vítimas da fé. Não vou aqui referir-me àqueles que sacrificam o que comer para manter os carros importados de seus pastores, mas aos que “emprestam” altas somas em troca de um “trabalhinho” espiritual e acabam ficando sem o dinheiro e sem os caminhos abertos que o “descarrego” prometia.

O que sobra ao otário é a boa fé; o que lhe falta é o conhecimento de que quem trabalha espiritualmente de verdade nunca envolve dinheiro em sua intermediação com o Além.

Lembrei-me de um caso acontecido em Xanxerê, não faz muito tempo: enganado por uma falsa vidente, um morador da cidade entregou-lhe R$ 55 mil em dinheiro, em duas vezes, para que fossem benzidos e servissem de abre-alas para não divulgados desejos da vítima. O “dinheiro” foi-lhe “devolvido” em duas bolsas de pano, costuradas física e “espiritualmente”, mas ele, ao abrir os recipientes, constatou que seu rico dinheirinho tinha sido trocado por folhas de jornal recortadas.

É óbvio que em momento algum passou por sua cabeça que a mulher era uma estelionatária e que ele era um trouxa.

Claro que a mulher sumiu. E é claro que em breve vamos ouvir falar dela – ou de uma outra estelionatária com o mesmo modus operandi – porque, agora mesmo, aqui na Maternidade Carmela Dutra ou na Maternidade Carlos Costa, há uma fila de pequenos otários prontos para crescer e fazer a vida dos golpistas.

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