Por: Cronicidade
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Ratos e homens

30/11/2013

Outro dia apareceu um rato em casa.


Descobrir que tem um rato em casa é bastante desagradável. Dá até tristeza.


Nesse fatídico dia, eu tinha acordado de bom humor, agradecendo a Deus o fato de estar vivo. Ah, agora um cafezinho preto... Um pãozinho torrado... Roído... O saco do pão roído... O rato roeu o pão do rei de...


Adeus, bom humor.


Comida, louças, panelas, tudo para fora do armário. Venenos sortidos, ratoeiras, armadilhas. Três dias de campana para pegar o bicho. Comeu o veneno de sobremesa e desprezou a ratoeira comum. Rato esperto. Nem tanto. Finalmente, lá estava ele, grudado na ratoeira de cola.


Fiquei aliviado, mas também com pena do rato quando o vi se debatendo, condenado à morte.


Afinal, era apenas um bicho pequeno e solitário, perdido no mundo, que acabou encontrando comida disponível depois de passar por um pequeno buraco na parede.


O rato é um bicho feio e maldito. Ninguém gosta de rato. Mas ele não tem culpa de ser um rato. Como qualquer ser vivo, precisa sobreviver, buscar alimento. E às vezes acaba se metendo no lugar errado. Exatamente como nós, humanos.


E os ratos humanos, têm culpa de se meterem numa rapina? Eles precisam sobreviver também, todo mundo precisa. Pensando assim, os homens-ratos roubam e enganam sem qualquer escrúpulo, sem dramas existenciais. Apenas seguem o chamado de sua natureza espúria. Roubam como se isso fosse seu direito. Como se a vida fosse uma corrida para ver qual o rato mais esperto, o primeiro a cruzar a linha de chegada.


Não me refiro apenas aos mensaleiros e políticos corruptos, que já são muitos. Esses são os ratões gordos, as ratazanas. Além deles, há uma variedade enorme de ratos humanos: o comerciante que te empurra um produto ruim ou inútil, o banqueiro que cobra juros extorsivos, o apressado que fura a fila no caixa do mercado, o limpador de carros que some com um objeto valioso que você deixou no porta-luvas, o devedor que não paga e está sempre na vida boa, o servidor público que recebe propina, o ladrão de galinha, o sonegador de colarinho branco, o patrão que ignora os direitos dos seus empregados... A lista é interminável. Todos eles: ratos.


Esses, sim, eu gostaria de ver se debatendo numa armadilha.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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