Por: Cronicidade
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Refúgio

18/08/2013

 

No início de 2001, eu estava completamente só em Floripa. Tinha um emprego e vivia num quartinho de pousada. Não pensava no futuro. Acho que nem no presente (agora passado). Não pensava em nada. Estava próximo de um desses pontos em que é preciso encontrar alguma razão para seguir adiante. Num domingo nublado, eu voltava da noitada caminhando pela Estrada da Joaquina deserta. O dia já estava claro e uma angústia repentina e cortante me agarrou pelo pescoço. Não consegui entrar na pousada para enfrentar as paredes do quartinho. Toquei para as dunas. A ideia era andar até o esgotamento físico.


Funcionou. O silêncio e a amplidão me recolocaram diante da minha insignificância, fizeram eu me sentir parte de algo muito grande. Algo que nenhuma explicação poderia alcançar. E que, portanto, não precisa de explicação. Aquela experiência me ajudou a enxergar o presente, e consolidou meu afastamento da ideia de futuro. Ainda bem. O futuro não existe, não passa de uma abstração. Só serve para perturbar as coisas.


Voltei outras vezes às dunas, sempre sozinho, buscando renovar aquele reencontro que tive comigo mesmo. Voltei lá neste domingo. Encontrei tudo como sempre. Os alugadores de pranchas à espera da grana dos turistas, os turistas sorrindo e gritando de prazer ao encarar as descidas mais íngremes.


Isso não me interessava. Segui adiante em direção à Lagoa, deixando o burburinho para trás, lentamente, até só escutar o som rangente das minhas pegadas na areia fina, o rumor do vento, a comunicação entre os pássaros. Uma vez ou outra as turbinas de um avião perturbavam essa sintonia rara ao sobrevoar as dunas depois de levantar voo no Sul da Ilha.


No mar de areia, um dos caminhos leva a um recanto que me causara um forte impacto da primeira vez que o vi. Uma lagoa escondida, ladeada por uma densa vegetação, refúgio de aves nativas. Uma visão idílica da vida selvagem. Tão perto de tudo... mas nunca encontrei uma única pessoa ali. O silêncio era total, quebrado apenas por rápidos desentendimentos entre os pequenos patos que se refrescavam no seu paraíso particular.


Fiquei um bom tempo olhando os bichos e a lagoinha secreta, curtindo a sensação de isolamento. Depois continuei a andar até chegar à Avenida das Rendeiras. No caminho ainda me deparei com uns garotos treinando sandboard numa pista alternativa, uma coruja zangada protegendo o ninho, lá do outro lado um grupo aprendendo a manejar um parapente antes de se jogar do alto de algum morro e, enfim, dois casais de turistas tirando fotos “criativas”, bem no início da trilha, para postar no facebook.


De volta à civilização.

 

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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