Por: Cronicidade
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Saudade, Biguaçu

13/07/2013

Desço a Rua Álvaro de Carvalho e dobro na Felipe Schmidt. Já passa das 18h, o calçadão começa a esvaziar, o fluxo de gente escorrendo apressado em direção ao Ticen, a mais um fim de semana de descanso. Andando percebo: nada é tão revelador do caráter transitório da vida quanto a observação das ruas do Centro num final de tarde de sexta-feira.


Na lateral da igreja São Francisco, escuto um sussurro de gratidão perdido em meio ao rumor dos transeuntes. “Obrigada, meu pai”. Olho para o lado e vejo uma senhorinha pequena e encurvada, carregando algumas sacolas plásticas. Ela dobra a esquina da Deodoro em direção ao Mercado Público e continua conversando com Deus, sem se importar com a marcha terrena à sua volta.


Sigo adiante e atravesso a Praça XV, vigiado pela lua crescente, protegido pelo anonimato. Uma dupla de velhos amigos divide alguns minutos de silenciosa cumplicidade sob a figueira. Um casal muito jovem se beija apaixonadamente, uma moça dá um brilho nos dreadlocks do cliente rastafári.


Saio na Rua João Pinto. Na esquina com a Saldanha Marinho, uma pichação expõe resquícios das manifestações recentes: “Se você não muda, nada muda”. Leio a frase feita e penso na fugacidade de todos os que deixaram suas pegadas invisíveis nessas ruas ao longo dos séculos. Mudam alguns detalhes – roupas, vocabulário, trânsito –, mas a rotina permanece inalterada: o eterno movimento humano entre a casa, o trabalho, o transporte, os protestos por melhores condições de vida e alguma distração para preencher os dias e as noites.


A noite dessa sexta-feira de 2013 já caiu sobre a Ilha. Nas mesas de bares espalhadas pelas calçadas, personagens solitários ocultam-se em meio a grupinhos empolgados com o fim de mais uma semana de trabalho. Burburinho de satisfação, cervejas se multiplicando.


Entro no Bar do Gaúcho e puxo uma banqueta diante do balcão. Espero pacientemente o gaúcho aparecer e peço uma gelada. Observo um cobrador ensimesmado no canto do balcão menor, debaixo do relógio do Grêmio “campeão gaúcho de 2010”. Ao meu lado estão uma trintona gorda de cabelo black power legítimo (dois palmos de carapinha quadrada e compacta, sem estilismos artificiais) e sua amiga magra e desdentada de cabelo descolorido. Ambas procuram com olhares furtivos a possibilidade de uma noite de prazer. Um rapaz passa por elas e faz um comentário à toa. A “loura” se alvoroça. A preta se finge impassível e emborca mais um gole de cerveja. Nas mesas do lado de fora, num grupo de estudantes, uma loura de verdade, 20 aninhos no máximo, destoa no ambiente com uma beleza ofuscante.


Distraio-me com as garrafas de destilado enfileiradas na prateleira, ao lado da televisão de cachorro com seus galetinhos dourados girando, tentadores. Peço outra cerveja. Enquanto espero, giro a banqueta para espiar o lado de fora do bar no exato instante em que passa uma preta tão perfeita que só poderia existir na ficção, mas eu a vejo bem ali, rebolando na passarela do velho terminal de ônibus. Carrega uma sólida e imponente bagagem. Usa roupas simples e provocantes, tem os cabelos alisados e presos no alto da cabeça, como uma rainha africana, toda ela volúpia e autoconfiança. Penso para onde ela vai e de onde vem, por mera curiosidade. Termino minha cerveja, peço um cigarro varejo, acerto a conta, levanto, caminho alguns passos e desvendo metade do enigma da preta: ela aguarda na fila de embarque para Saudade, Biguaçu. Descubro que existe uma Saudade em Biguaçu.


Volto a andar, passo por uma carroceira resignada, arrastando sua sina entre pilhas de papelão, os olhos baixos, 40 anos aparentando o dobro. Atravesso o fim da feira no Largo da Alfândega enquanto os comerciantes recolhem frutas, salames, doces. Uma menina acompanhada dos pais fotografa a velha construção. Tudo está em aparente paz e equilíbrio. A noite é morna e o tempo já não importa, pois amanhã é sábado.


Adentro o vão central do Mercado, aspiro o odor marinho das peixarias fechadas, entro na primeira lanchonete e peço um expresso. Um careca triste e solitário de meia-idade também pede um e fica por ali, quieto, observando a agitação da vida alheia. Termino o café e subo a Jerônimo Coelho. Um caminhão está parado diante de uma loja, três homens descarregam mercadorias. Um deles rompe o silêncio: “Fica ligado. Depois acaba levando um tiro”... O tom parece meio sério meio bravata, mas a ameaça serve para lembrar em que mundo vivemos, o mundo real.


Antes que uma simples caminhada noturna me faça crer num mundo fictício.

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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