Por: Fala, Zanfra!
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Sem medo de viver

01/04/2019

Num filme de 1993, dirigido por Peter Weir, Jeff Bridges interpreta um arquiteto que sobrevive, com algumas poucas pessoas, a um acidente aéreo. Apesar do que possa ficar sugerido, entretanto, o foco de Fearless – ou Sem medo de viver, na versão brasileira – não está no acidente em si. Está na reação do arquiteto Max Klein ao fato de ter sobrevivido.

Eu disse que o foco não está no acidente, mas nem por isso ele é negligenciado: no final do filme, estão as cenas mais impressionantes que já vi sobre o que acontece – ou poderia acontecer – dentro de um avião, no momento em que ele está sendo destruído durante a queda. Não bastasse o interesse presente no enfoque psicológico de Fearless, só a sequência do acidente valeria o ingresso no cinema!

Mas, como eu ia dizendo, o tema principal do filme é uma discussão sobre o valor da vida e se baseia nas transformações por que passa Max Klein depois de escapar da morte. Além de mudar sua forma de encarar as coisas e de se relacionar com os colegas e familiares, ele passa a não ter medo de nada, como se a experiência de sobreviver ao acidente que ceifou a vida de muitas pessoas o transformasse em imortal. Daí o título Fearless (sem medo).

A certa arrogância com que Max Klein se posta diante do perigo, como se a ‘indesejada’ não fosse mais capaz de alcançá-lo, me veio à lembrança imediatamente após a notícia da morte do radialista Rafael Henzel, 45 anos, na última terça-feira (26), derrubado por um infarto enquanto jogava futebol com os amigos.

Henzel foi um dos seis sobreviventes da tragédia com o avião da Lamia que levava o time da Chapecoense para disputar a final da Copa Sul-Americana na Colômbia, no final de novembro de 2016. Setenta e uma pessoas morreram. O fato de ter sobrevivido em meio a tantas mortes poderia fazer com que ele, a exemplo do arquiteto de Jeff Bridges, julgasse estar fora do alcance do ‘ceifador’?

“O que posso dizer é que lá ocorreu um milagre. Setenta e uma pessoas perderam a vida, apenas seis pessoas sobreviveram. No meu caso, posso dizer que houve um milagre, já que o meu banco ficou preso entre duas árvores, caso contrário eu seria lançado mais à frente e sabe-se lá o que poderia acontecer”, disse Rafael Henzel, menos de dois meses depois da tragédia, e antecipando sua resposta à pergunta que faço agora.

O problema é que as perguntas são muitas. Como você consegue escapar com vida de um acidente que matou 71 pessoas e depois de pouco mais de dois anos sucumbe a uma parada cardíaca incompatível com quem tem pouca idade, uma vida regrada e o hábito de praticar esportes pelo menos uma vez por semana? Não é irônico? Não é contraditório? Não é, em suma, a negação do sentimento que brotou em Max Klein e que é capaz de brotar em todos que passam por experiências como essa?

Henzel parece, mais uma vez, antecipar sua resposta à minha pergunta: “A vida vai passando, vão ficando recordações, e de repente a vida pode parar. Temos que viver com mais amor, viver mais com a família, apesar de que temos que trabalhar. Principalmente, irradiar solidariedade, irradiar o amor.”

Porque da segunda vez parece que não dá para escapar...

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