Por: Fala, Zanfra!
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Sentimentos animais

22/04/2016

Algum de meus poucos mas antenados leitores já presenciou alguma vez os últimos momentos de um camundongo colhido por uma certeira vassourada? Aquele exato momento após o plunkt! da vassoura sobre a pequena massa de peste bubônica que atazanou a vida da família nos últimos três dias?

Pois então: nesse instante, o pequeno e lépido ser solta um curto e agônico guincho, como quem dissesse “ih, dancei!”, e fica ali de barriguinha para cima, patinhas dianteiras recolhidas como um tiranossaurus rex em miniatura, dentinhos superiores expostos à mórbida curiosidade humana...

Nesse momento, leitor, é claro que o algoz do roedorzinho sente a glória do triunfo contra um inimigo impalpável até pouco tempo antes, sente o orgulho por cumprir a missão de livrar a família daquele pequeno capítulo de praga urbana...

... mas – digo isso porque já aconteceu comigo – sente também um restinho de pena e remorso por ser o responsável pelo fim daquela vidinha curta e desgraçada, que gerou tanto ódio e preocupação em tão pouco tempo.

Sabe por que esses sentimentos antagônicos?

Por causa daquele curto, quase inaudível e sinestésico guincho de adeus que o ratinho soltou como resposta ao golpe da vassoura. Se ele guinchou, é porque sentiu dor, sofreu e compreendeu, ainda que de forma primária, a chegada do fim. Exatamente como faríamos nós, seres humanos – talvez não exatamente com um guincho – diante da mesma circunstância. Ele sentiu como nós sentiríamos.

Chego até aqui, numa comparação que talvez não seja das mais apropriadas, porque me lembrei da justificativa de um amigo vegetariano para não comer carne: por causa do sofrimento imposto ao animal que fornece aquela carne. Se o animal sente dor, se tem um sistema nervoso central, ele vai sofrer no momento do abate, vai entregar-se ao martírio para que nós, os carnívoros, tenhamos nosso curto prazer papilar, enquanto cuidamos de repor nossa quota de proteínas, aminoácidos, zinco, selênio e complexo B. Eles sofrem como nós sofreríamos. Por isso, os vegetarianos não comem carne.

Não deixo de dar razão ao colega. Se parar para pensar, vou sentir pena daquele bezerrinho que minutos antes pastava bovinamente seu capinzinho fresco, até ter a juventude interrompida por uma marretada na nuca, ou daquela galinha tenra que ciscava despreocupadamente o solo em busca de vermes quando teve o pescoço bruscamente destroncado ou quiçá degolado...

Mas, como a maioria dos apreciadores da carne, não paro para pensar. Meu senso carnívoro é mais forte do que o senso humanitário. Prefiro acreditar que a carne nasce lá no supermercado, dentro daquelas bandejinhas de isopor. Prefiro acreditar também nos meandros inexpugnáveis do destino: uns nascem para brilhar; outros, para estar na base da cadeia alimentar. Um peixe nasceu para ser assado, não para cursar Direito em Harvard. Prefiro acreditar em qualquer coisa que me ofereça a indulgência para o prazer gastronômico da carne.

Isto posto, exponho a dúvida que me levou a começar o texto com o guincho do camundongo: caso seja mantida a premissa de respeito ao sofrimento dos animais, os vegetarianos por acaso não matam ratos?

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