Por: Fala, Zanfra!
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Surpresas natalinas

24/12/2018

Talvez hoje eu fosse considerado uma pessoa atrasada para meu tempo, mas só fui informado de que Papai Noel não existia aos sete anos de idade! Pior foi minha irmã, dois anos mais velha, que teve seus sonhos desfeitos na mesma ‘sessão hora da verdade’ que eu!

Pois a partir da bicicleta Merckswiss verde, aro 22, que ganhei no Natal de 1963, eu já sabia que quem providenciava minha alegria natalina era seu Armando, meu pai, que se foi há 30 anos, quando há muito tempo não fazia mais o papel de Papai Noel. 

Saber que o bom velhinho não existia não deixou de ser um choque, mas também trouxe inegáveis vantagens: a principal delas foi administrar as expectativas. A partir do momento em que você sabe que seu presente de Natal tem de estar atrelado à realidade econômica da família, não dá para pedir um camelo, um helicóptero ou um jipe militar com metralhadora .50 acoplada.

E por isso até o radinho de pilha que ganhei quando me formei no primário, em 1966, foi recebido com as mesmas pompas com que brindei a bicicleta de três anos antes. Era só administrar – e adequar – as expectativas, como já disse agora há pouco!

Em contrapartida, havia o fim do segredo: se o presente não vinha diretamente do Polo Norte, em viagem sem escalas num trenó puxado por renas, ele também não podia ser comprado momentos antes numa loja previamente montada nas imediações de sua casa! Para estar à disposição do ‘Papai Noel’ terreno, que teria a missão de depositá-lo sob o pinheirinho de metro e meio feericamente iluminado, o presente teria de estar dentro de casa!

Escondido, claro!

E então localizar o esconderijo dos presentes, para saber antecipadamente até que ponto sua expectativa estava aquém ou além da realidade, passou a ser o esporte nacional alguns dias antes do 25 de dezembro!

Mas para quê? Revendo hoje aquela situação, não vejo graça alguma em saber alguns dias antes o que seria meu e estaria sob as luzes piscantes, alguns dias depois! Estragar a surpresa era divertido? Saber por antecipação o que seus pais haviam tido tanto trabalho para esconder, com o único propósito de proporcionar a alegria da surpresa, era divertido?

Tive um choque de realidade no Natal de 1969 que me fez abandonar essa garimpagem prévia. Naquele ano, a Philips havia lançado um brinquedo educativo chamado Engenheiro Eletrônico, que consistia em kits de montagem de vários circuitos eletrônicos – intercomunicador, amplificador, rádio receptor etc. – de fácil montagem até para um jovenzinho besta como eu!

Não era um presente barato, e por isso eu não sabia se meu Papai Noel poderia comprá-lo. Fiquei sabendo que sim dois dias antes do Natal. Encontrei o pacote debaixo de uns cobertores, dentro do guarda-roupa do quarto de meus pais. E então, quando fui apresentado oficialmente ao presente, debaixo da árvore iluminada, comecei a chorar – não de alegria, mas de remorso. Remorso por ter estragado minha própria surpresa, e por ter estragado a alegria deles ao ver o que deveria ser minha surpresa! Desprezei o trabalho que tiveram para me ver feliz por causa de minha curiosidade!

Preciso dizer que a partir daí esperei pacientemente a chegada do Papai Noel?


Aos leitores que ainda acreditam em Papai Noel, mesmo que ele seja de carne e osso – ou pele e osso, como eu! – um Natal cheio de surpresas e felicidades! No ano que vem, estaremos de volta!

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