Por: Cronicidade
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Travessia

15/12/2013

Passar a manhã de domingo nadando na Lagoa da Conceição não é má ideia. Talvez não estejamos muito longe do momento em que isso será uma condenação à morte, caso o lançamento indiscriminado de esgoto continue. Talvez, daqui a 50 anos, o entorno da Lagoa esteja coalhado de horrendos arranha-céus, de onde os ricos vão contemplar a obra da natureza transformada, enfim, numa imensa privada a céu aberto.


Talvez, mas não agora. Agora ainda é possível curtir a sensação única das suas águas envolvendo o corpo inteiro, como um abraço de mãe.


Nessa manhã de domingo, centenas de nadadores participaram da 31ª edição da Travessia da Lagoa. Jovens, velhos, deficientes, moleques, homens, mulheres, profissionais, amadores. Todo ano, sempre em dezembro, a mesma reunião de toucas coloridas para percorrer a nado uma distância aproximada de dois quilômetros.


O sol apareceu bem na hora da largada. Um minuto antes da sirene, gritos, assovios e jorros de água para o alto – uma forma quase tribal de celebrar uma bela manhã de domingo. Depois, o enxame de braços e pernas espirrando água para todos os lados.


Alguns participantes nadam com a cabeça no relógio, na eficiência dos movimentos, na performance dos adversários, na expectativa da plateia, na busca para superar o tempo atingido na última travessia e alcançar o pódio glorioso. A mim isso parece o desperdício de uma grande oportunidade para simplesmente relaxar. Ou para vencer o desafio pessoal de chegar ao outro lado, e assim sentir-se capaz, saudável, VIVO. Precisa de mais alguma coisa?


Nadar na Lagoa numa manhã de domingo como essa é revisitar o umbigo úmido da criação, o silêncio das águas calmas, a proximidade apenas pressentida de seres que vivem tão perto de nós, e que quase nunca vemos. É contemplar o mundo de um ângulo diferente.


Deus permita que ainda tenhamos esse privilégio por muitos e muitos anos. Amém.

Fotos: Simone Nascimento

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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