Por: Fala, Zanfra!
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Um idoso esbanjando juventude

12/04/2016

Quando era criança e o ano 2000 parecia ser o limiar de uma nova era, com carros voadores e robôs cuidando dos trabalhos domésticos, eu fazia as contas e descobria que, se sobrevivesse à corrosão da velhice, teria quarenta e quatro anos ao romper do século XXI. Seria pois um velho acabado – caso estivesse vivo – e provavelmente não teria disposição física e mental para gozar das benesses do novo milênio.

Era até compreensível que eu me visse assim: minha referência de pessoa muito mais velha era meu pai, que pouco havia passado dos trinta quando eu tinha seis anos, mas era meu pai, oras, e por isso exemplo de uma geração distante.

No ano 2000, segundo minhas previsões, eu teria matematicamente muito mais idade que ele e portanto seria um inútil e alquebrado ancião, igualzinho àqueles representados nas placas azuis (*) que identificam as vagas para idosos nos estacionamentos.

Mas já faz dezesseis anos que o ano 2000 chegou e ainda não vi carros voadores ou robôs arrumando minha cama ou lavando minha roupa, como via nos Jetsons. E também já faz dezesseis anos que passei dos quarenta e quatro e, juro!, não chego nem perto daquele velho caquético, esclerosado e carunchoso que eu me imaginava quando era criança. Até pareço um garotão, diante de minhas perspectivas ancestrais.

De uma coisa não consegui escapar, entretanto: da condição de idoso.

Pois é: a partir desta data – ou, mais exatamente, a partir da 0h40 de 12 de abril de 2016 – assumo oficialmente minha entrada na Terceira Idade. Ou Melhor Idade, como quer aquela turma que tem manuais de autoajuda como livro de cabeceira. Ou ‘no ocaso da vida’, como avalia qualquer um que pese racionalmente os prós (?) e contras da derradeira e inexorável etapa da existência, a velhice.

Mas, na prática, o que muda com isso?

Tirando o uso legal e moral de vagas para estacionamento (**) e filas preferenciais, um ou outro benefício como meia entrada ou gratuidade e o fato de servir de agravante na pena de alguns crimes dos quais possa ser vítima, acho que não muda muita coisa. Meu jato urinário não vai estar mais forte ou mais fraco do que estava seis meses antes. Meu desempenho sexual também não. As restrições alimentares ainda não começaram (no meu caso) e o vigor físico está como estava quando eu tinha 59 anos e 11 meses. A nova idade, todavia, não deixa de ser uma referência.

A data de minha entrada na área de especialização da geriatria não é uma data aleatória e comercial – como o Dia dos Namorados ou o Dia da Criança – pois tem lá seus efeitos práticos, administrativos e legais. Como você precisa completar dezoito anos para tirar sua carteira de habilitação, você precisa completar sessenta para ser idoso. Embora você não se torne, respectivamente, nem mais responsável nem mais velho de um dia para o outro.

Quanto a mim, posso dizer que, ao completar sessenta, algumas qualidades atribuídas aos idosos, como a impaciência e a rabujice, eu já havia incorporado anteriormente, e portanto não estão previstas alterações significativas nesse aspecto – embora uma corrente acredite que eu vá, sim, me tornar mais insuportável a cada dia.

E, ao contrário do que eu mesmo previra, levo para a nova idade algumas características joviais, como a vivacidade, o humor – ou a capacidade de fazer piadinhas bestas com quase tudo – a disposição física, a boa saúde (triglicerídeos e PSA lá embaixo), a criatividade e o inesgotável e irrefreável afeto pelas mulheres.

Em resumo, para os efeitos legais, sou idoso. Para os efeitos de autoindulgência, estou idoso – e isso apenas por força das circunstâncias temporais impostas pela data. Creio que vou demorar um pouco ainda para me tornar aquele velho acabado que antevi quando criança.

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(*) Aquelas placas não me representam!

(**) Depois de dar algumas voltas no estacionamento do BIG, que estava lotado no sábado, parei diante de uma vaga reservada a idosos e me perguntei: ‘Por que não? O que representam esses três dias que faltam para me tornar oficialmente um idoso?’ E me respondi depois (muito depois, porque tive de recorrer à calculadora para chegar ao resultado): ‘Ora, apenas 0,013% de toda minha prolífera existência...’

Sem qualquer sentimento de remorso, então, enfiei o carro pela primeira vez na vida em uma vaga a que teria direito legal e moral somente a partir de hoje.

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