Por: Fala, Zanfra!
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Um mata-moscas gigante

18/02/2019

Basta acontecer uma dessas mortes bestas e inesperadas como a do jornalista Ricardo Boechat que a gente fica com a pulga atrás da orelha. Eu, pelo menos, do alto dos meus quase 63 anos, fico com um pé atrás: aconteceu com ele, pode acontecer comigo!

Você pode estar na melhor de suas fases, gozando da mais perfeita saúde e, de repente – paff! – um mata-moscas gigante, vindo não se sabe de onde, te colhe em pleno voo, acaba com tudo, põe um ponto final em seus planos, mesmo os mais imediatos, e muita coisa fica sem fazer sentido na programação que tinha sido feita para o dia.

A jornalista Mariliz Pereira Jorge traduziu perfeitamente, em texto publicado na Folha, a angústia que a gente sente após acontecimentos como a morte de Boechat: “Quase todos nós tomamos como garantia que no final do dia, ou em algum momento, voltaremos para casa. Nem passa na cabeça da maioria de nós que ao virar a chave da porta, talvez aquele gesto, tão prosaico, seja feito pela última vez.”

É assim: você pode pôr feijão de molho para cozinhar à noite e a panela acabar abandonada para sempre sobre o fogão. As atividades mais corriqueiras de seu dia a dia – como amarrar os sapatos, escovar os dentes, passar uma camisa a ferro – podem estar sendo feitas pela vez derradeira.

Vai vendo: um amigo querido de longa data tinha encerrado o expediente e já ia preparar-se para a viagem de volta para casa, mas um infarto fulminante o levou, não para o aconchego do lar, mas para a escuridão do desconhecido; minha irmã mais velha ia ao dentista, despediu-se do filho pouco antes e pediu que ele comprasse discos de pizza para o jantar, mas nem chegou ao consultório: ficou no meio da rua, também levada pelo coração traiçoeiro.

Pois é assim que funciona: ela chega sem aviso e nem quer saber se você tinha alguma coisa urgente para resolver, uma pessoa querida a visitar, um boleto em cima da hora para quitar... Ela simplesmente te leva, sem mais explicações. Veja: estou aqui, por exemplo, escrevendo este texto, mas quem sabe se estarei vivo para postá-lo no blog...

É claro que ninguém quer que a morte seja antecedida por um longo padecimento, mas, convenhamos, um acordo seria aconselhável – tipo uma junta de conciliação – para que o desenlace não fosse assim, tão abrupto. Que você tivesse um tempinho para resolver os assuntos pendentes, fazer ou não o feijão que estava de molho na panela, despedir-se dos parentes e amigos, passar a senha do caixa eletrônico, encerrar as contas no Instagram e no Facebook... Coisas assim.

Duro é não saber quando chega nossa hora. E viver, como disse a Mariliz, com “a lembrança de como nossa existência é frágil, de como somos efêmeros, de como precisamos lembrar de que a porta da vida talvez esteja se fechando atrás de nós pela última vez”.

(Este texto foi escrito na quarta-feira, 13, dois dias depois da morte de Boechat; se os estimados leitores o têm o hoje no blog, não deixa de ser um bom sinal...)

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