Por: Cronicidade
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Uma manhã na Ponta do Coral

30/08/2013

Reparei hoje, passando pela Beira-Mar Norte, que foi retirada a cerca na entrada da Ponta do Coral. Três meses atrás, eu acompanhava a demarcação da área. Ou seja, continua a polêmica em torno do destino daquele pedaço da Ilha. Pelo menos agora tenho a oportunidade de publicar uma crônica inédita, escrita naquela ocasião. Está aí:

Um trio de amigos aproveita a manhã nublada e quente de sexta-feira para uma conversa despreocupada, à sombra de velhas árvores que resistem na Ponta do Coral. A poucos metros dali, na Avenida Beira-Mar Norte, na vizinhança da bucólica Casa do Governador e de órgãos federais com seus prédios imponentes, milhares de automóveis passam cuspindo fumaça e deixando no ar o ronco dos motores. Indiferente à pressa da cidade e a seus castelos inexpugnáveis de poder, um galo passeia com sua companheira ao lado da ciclovia, em torno dos 60 ranchos de pesca construídos na pequena faixa de terra que avança sobre o mar. O galo se apruma e solta um cacarejo tardio. Um ciclista passa veloz e espanta o casal de bichos para o interior da comunidade pesqueira que se formou naquele pedaço de Florianópolis ao longo das últimas oito décadas.


Naquela sexta-feira, um rapaz solitário termina de apertar os últimos parafusos de uma cerca recém-instalada para demarcar a entrada do local. Ele não sabe dizer quem o contratou para fazer o serviço. “Só sei que não foi a prefeitura. Mas outro dia tinha um cara da construtora orientando os funcionários”, conta. Onde antes havia a entrada de um estacionamento, foi colocado um portão fechado com correntes e cadeados, bem debaixo da placa que avisa em letras garrafais: “Propriedade Particular”.


Não se sabe ao certo de quem é a propriedade de fato da área, um terreno de marinha que deveria, a princípio, pertencer ao patrimônio da União. Encravada na região mais movimentada da capital, é um reduto desconhecido de perto, por dentro. Enquanto eu conversava com um pescador, um morador da Agronômica entrou ali de bicicleta e se aproximou, cauteloso e desconfiado. “Dá licença, posso entrar aqui pra dar uma olhada?” O pescador respondeu: “Claro”. O rapaz suspirou aliviado e comentou: “Eu passei aqui na frente a minha vida toda e nunca entrei”.


No extremo da Ponta do Coral, ali na beirada do mar, com vista eterna da baía, um barraco de madeira serve de moradia para um grupo de pessoas. Um longo bocejo denuncia que o casebre está ocupado. Alguns ranchos de pesca também estão equipados com cama, TV, cozinha – tudo o que é necessário para uma residência improvisada.


Na roda de amigos formada ali dentro, diz-se que a Ponta do Coral foi adquirida na década de 1980 por uma empresa do Sul do Estado. “Tentaram construir aqui durante vários anos e não conseguiram. Agora parece que se associaram à construtora para fazer um aterro”, comenta um deles, que frequenta o local desde a juventude e é a favor de um empreendimento para revitalizar a área. Ele afirma também que o local costuma ser refúgio provisório de marginais.


O pescador, que não quis se identificar, conta que ali já houve um campo de futebol e um abrigo de menores. Seu avô foi um dos pioneiros da pesca artesanal no local, na década de 1930. Os ranchos foram sendo construídos à margem de um grande arrecife, que garante a pescaria para os que sobrevivem apenas com a ajuda de barco a remo. “Na audiência pública nem deixaram os pescadores falarem. A construtora propôs colocar ranchos abertos na ponta do aterro que eles querem fazer. Isso a gente não aceita porque vai dificultar muito a pesca artesanal e qualquer um vai poder usar a estrutura”, afirma. Segundo ele, o aterro seria feito sobre a base de arrecifes, sepultando um grande criadouro natural de peixes.


O prefeito Cesar Souza Júnior já declarou que não vai conceder alvará para obra particular no local. A nova administração municipal também encaminhou um ofício à Secretaria de Patrimônio da União (órgão responsável por analisar a possível cessão da área) desistindo do processo para o aterramento de 32 mil metros quadrados. Ainda assim, o pescador não se ilude. Sabe que o poderio econômico determinou, ao longo da história recente, diversos empreendimentos de grande porte em terrenos de marinha e áreas de preservação.


Uma audiência na Justiça Federal, no início de maio, para discutir a implantação do “Parque Hotel Marina Ponta do Coral”, terminou sem acordo. A palavra agora está com os órgãos ambientais. Enquanto a Justiça não decide o imbroglio, os empreendedores se anteciparam cercando a área. O principal acesso à praia foi mantido aberto, mas a mensagem é clara: a Ponta do Coral tem dono.


Na prática, porém, a história é mais complicada. A conferir o capítulo final.

 

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Autor: Rafael Leiras Cronicidade é o mesmo que periodicidade, ou seja, o estado do que ocorre em tempos determinados. Esta palavra incomum, esquecida nos dicionários, também parece fundir as ideias de crônica e cidade – dois territórios onde transcorre a vida, com seus ciclos eternos, seus tempos determinados. Cronicidade dá nome a este espaço, abrigo de fotografias e textos, livres de rótulos ou classificações. Simples registros do cotidiano da nossa época. Rafael Leiras é jornalista, escritor e roteirista. Nas redações, trabalhou como repórter em jornais do Rio de Janeiro e de Florianópolis.

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