Por: Fala, Zanfra!
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Vai um consignado aí?

16/05/2017

Amanheci o dia 5 de maio com uma boa notícia na caixa de entrada de meu Gmail: a funcionária do INSS em Florianópolis escrevera para informar que a Previdência considerara válidas minhas alegações finais e decidira dar sinal verde para minha sonhada aposentadoria por tempo de contribuição.

De lá para cá, venho recebendo essa mesma notícia quase diariamente, e às vezes mais de uma vez por dia. Não, não são solícitos servidores previdenciários, querendo ter certeza de que tenho ciência de minha nova condição de inativo remunerado: são os prepostos de dezenas de financeiras que apostam seu crescimento na exploração dos altos juros que os mal pagos aposentados dispõe-se a encarar, para tentar manter um padrão de consumo ao menos próximo do que viviam antes da ociosidade.

Não posso dizer que seja meu caso, felizmente, mas, depois de longos 35 anos ralando, a maioria dos beneficiários da Previdência chega à inatividade recebendo às vezes apenas a metade do que recebia quando contribuinte. Coincidentemente, passa a ter aumento da demanda médica e farmacêutica, em virtude da idade que se avoluma, e vê seus minguados recursos correrem pelo ralo no quarto dia útil do mês – considerando que o pagamento possa ter saído no terceiro dia.

São, pois, obrigados a lançar mão dos malditos empréstimos consignados, o suprassumo da canalhice financeira com quem não tem onde cair morto e se vê preso por anos e anos a uma prestação religiosamente cobrada na fonte. O consignado é tão canalha que até proibido já foi – mas acabou reconduzido ao pódio por suas próprias vítimas. Como aquela velhinhas que lutam pela legalização do bingo sabendo que vão perder uma fortuna por lá.

Têm culpa os agentes financeiros pela desumanidade do sistema previdenciário? Claro que não. Mas não precisam vender caro um copo de água a quem está morrendo de sede no deserto. Chama-se a isso oportunismo, um dom natural que os abutres têm ao nascer. Mas é como a questão das drogas ilícitas: não houvesse consumidores, não haveria traficantes; não houvesse interessados nos empréstimos consignados, as financeiras teriam de procurar outros pescoços para sugar o sangue.

Quanto a mim, tenho ensaiado um discurso – que inclui até uma ameaça de processo judicial – para cortar o papo dos operadores de telemarketing que já passaram a fazer parte de minha rotina. Já me bateram o telefone na cara enquanto eu discursava. Mas eles não se comunicam entre si, e portanto o que eu ameacei hoje não é o mesmo que vai ser ameaçado amanhã.

Nesse processo todo, eu só queria saber como tantos ficaram sabendo, inclusive com data exata, que passei à categoria de aposentado.

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