Florianópolis, Manezinhos pelo Mundo - 11 Jul 2013 06:44

A história do homem que nasceu sem enxergar e já leu mais de 2 mil livros

Ivo de Jesus completou 65 anos de uma vida dedicada à leitura, no domingo (7)
Por: Róbinson Gambôa
 
A história do homem que nasceu sem enxergar e já leu mais de 2 mil livros Ivo contabiliza os livros que lê, desde que aprendeu o braile, ainda criança. (Foto:Róbinson Gambôa/Tudo Sobre Floripa)

Ele não consegue enxergar as letras, mas aprendeu a sentir as palavras na ponta dos dedos. Ele nasceu completamente sem visão, mas a deficiência não o impediu de aprender a ler. Aos 65 anos, Ivo Manoel de Jesus já leu exatos 2.050 livros, todos através do braile, método que aprendeu ainda criança, incentivado pelas freiras que o criaram, no Asilo Irmão Joaquim, no Centro de Florianópolis, onde Ivo passou toda a sua vida.

A paixão pela leitura faz Ivo percorrer sozinho, com sua bengala, o percurso da avenida Mauro Ramos até a Biblioteca Pública do Estado, na rua Tenente Silveira, em busca dos livros. O acervo em braile há muito tempo já foi devorado pelo toque sutil da ponta dos seus dedos. Quando não havia mais novidades disponíveis, foi preciso uma parceria com São Paulo para que novas obras chegassem a Florianópolis.

Ivo conta que jamais leu um livro duas vezes. Desnecessário para uma memória ainda aguçada. Fã de escritores como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Jorge Amado, ele aponta Monteiro Lobato como seu autor preferido. Limitado ao que as bibliotecas oferecem, Ivo não reclama de trazer para casa obras didáticas, como livros de Física e Química, por exemplo.

Há poucos dias, foi “Capitães de Areia”, de Jorge Amado. Antes, “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Outro dia, se divertiu com “Homens fazem sexo, mulheres fazem amor”, do casal Allan e Barbara Paese. São dias e noites debruçado nas páginas em braile, uma vida inteira dedicada à leitura.

Ivo nasceu sem a visão, no Morro da Caixa, na Ilha de Santa Catarina. (Foto:Róbinson Gambôa/Tudo Sobre Floripa) Ivo nasceu sem a visão, no Morro da Caixa, na Ilha de Santa Catarina. (Foto:Róbinson Gambôa/Tudo Sobre Floripa)

Ivo é hoje o paciente mais antigo do Asilo, onde vivem 35 idosos, a maioria precisando de cuidados e acompanhamento médico. Ali vivem um oficial da Marinha aposentado, e também um ex-preso político, que foi torturado pela Ditadura. Mas nenhum deles viajou tanto pelo mundo e viu tantas histórias serem contadas como Ivo, no universo mágico de suas leituras.

Nascido no Morro da Caixa, não muito longe de onde fica o Asilo, Ivo foi deixado com as freiras ainda aos 3 anos de idade. Foi alfabetizado em braile, e, aos 7 anos passou a estudar música. Começou com a gaita, e terminou no teclado, um talento que ele mostra todos os dias na hora da missa, celebrada na capelinha do Irmão Joaquim.

Ainda jovem, Ivo foi ao Rio de Janeiro, incentivado pelas freiras, que na época ainda administravam o Asilo. Viajou de avião, e pode imaginar como era o céu visto de cima, porque seus livros já haviam lhe contado sobre essa emoção.

Pouco tempo depois, Ivo foi levado a Belo Horizonte, onde tentou fazer um curso de massagem. Foi reprovado, segundo ele, porque não sabia dizer quantos ossos tem o corpo humano. Ele não se conformou com aquilo, e foi estudar ciências em braile. “Agora sei que são 208 ossos”, comemora.

No último domingo (7), Ivo completou 65 anos, mas a festa será coletiva, no dia 30, comemorando todos os aniversários do mês. Uma das mais antigas instituições de Florianópolis ainda em funcionamento, o Asilo Irmão Joaquim completou no dia 4 seus 111 anos de serviços prestados à comunidade.

Situado num prédio tombado como patrimônio histórico do município, ocupando quase uma quadra inteira na avenida Mauro Ramos, o asilo sobrevive apenas de doações, como instituição privada sem fins lucrativos. Mesmo assim, mantém 35 pacientes, a maioria com necessidades especiais, além de um quadro de funcionários.

Aos 7 anos, começou a estudar música, e hoje toca teclado nas missas do Asilo. (Foto:Róbinson Gambôa/Tudo Sobre Floripa) Aos 7 anos, começou a estudar música, e hoje toca teclado nas missas do Asilo. (Foto:Róbinson Gambôa/Tudo Sobre Floripa)

Um dos diretores voluntários, o engenheiro Vitor Warken Filho revela que centenas de amigos costumam ajudar com doações de alimentos, roupas e até dinheiro, através de uma conta no banco. É impossível calcular quantos pacientes já passaram pelo Asilo neste mais de um século de atividade.

- Foram milhares -, revela Vitor.

Vitor conta que existem em Florianópolis 18 instituições em funcionamento que atendem idosos. No entanto, apenas o Irmão Joaquim não cobra mensalidades, prestando atendimento gratuito.

A expressão “Asilo de Mendicidade”, grafada no alto do prédio, junto à porta principal, não é mais usada oficialmente, pois passou a ser considerada pejorativa. No entanto, como o prédio é tombado, não se pode retirar as letras em relevo que estampam as duas palavras na parede externa.

Quem passa em frente ao prédio, numa das ruas mais movimentadas de Florianópolis, não tem ideia das histórias que acontecem ali. Como da menina de 9 anos que foi visitar o Asilo com a turma da escola. Emocionada com o que viu, ela saiu sozinha para a rua e foi chorar na calçada.

- As pessoas passam por aqui, nos olham, mas não enxergam -, apontou Vitor.

Para quem quiser contribuir com alguma doação, Vitor aconselha que primeiro faça uma visita ao Irmão Joaquim. Roupas e alimentos são as maiores necessidades, mas doações em dinheiro podem ser feitas através da conta 105014-1, da agência 42366, Banco do Brasil.


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