Economia e Negócios, Florianópolis, Geral, Meio Ambiente, Tecnologia - 31 Mai 2020 01:23

Artista plástica de Floripa transforma redes de pesca em esponjas ecológicas

Produtos ecológicos de limpeza rendem R$ 5 mi a empresa de São Paulo
Por: Direto da Redação TSF
 
Artista plástica de Floripa transforma redes de pesca em esponjas ecológicas (Foto: Facebook / diovulgação)

Por Vanessa Fajardo, da Ecoa, de São Paulo.

Com pedaços de rede de pesca industrial compradas nos ranchos de pescadores np Pântano do Sul, em Florianópolis, feitas a base de poliamida, um composto plástico, a artista plástica Nara Guichon já criou bolsas, mantas, tapetes, echarpes e até roupas de luxo. Hoje, entretanto, sua produção está focada em esponjas. São dois os tipos que a artista de 65 anos confecciona: uma mais grossa e resistente, semelhante às escovas usadas em tanques domésticos, e outra um pouco mais macia.

A artista plástica explica que estas redes de pescas podem medir centenas de quilômetros de extensão e chegam a custar até R$ 1 milhão. Por isso é muito comum que os pescadores as encaminhem ao conserto quando há avarias. Nara consegue comprar as redes que sobram nos galpões e que, por algum motivo, os donos das embarcações pesqueiras deixaram para trás.

- Resolvi criar esses produtos com as redes por desespero de ver a quantidade de lixo jogado no meio ambiente. Quando são abandonados no oceano, os pedaços das redes podem durar até 6 mil anos. É o tipo de pesca industrial super predatória, porque as redes são largadas e os bichos acabam se enroscando - , diz Nara.

(Foto: Facebook / diovulgação)(Foto: Facebook / diovulgação)

A artesã criou as esponjas em 2014, mas há pouco mais de um ano os artigos passaram a ser comercializados exclusivamente pela Positiva, uma empresa com sede em São Paulo que vende produtos de limpeza ecológicos. A Positiva vende 30 itens destinados à limpeza doméstica, variando de produtos para limpeza geral, soluções para lavar louças e roupas, limpa vidros, além de panos de prato e buchas vegetais. Os produtos são veganos, feitos à base de coco e laranja e não possuem nenhuma substância derivada de petróleo. As embalagens são recicláveis.

A artista catarinense fornece para a Positiva cerca de 500 esponjas (que passaram a ser chamadas de esfregão ecológico) por mês, feitas por um grupo de dez pessoas. O processo é todo artesanal. Depois de adquirir as redes nos galpões, elas são lavadas e colocadas de molho quando têm algum odor. Depois seguem para secagem, são cortadas, dobradas em seis ou oito camadas e encaminhadas para a costura.

- Esse trabalho me dá uma tranquilidade no coração, porque consigo fazer algo para colaborar com o planeta. Tenho esse parceiro que faz com que eu produza e eles vendam -, aponta a artista.

(Foto: Facebook / diovulgação)(Foto: Facebook / diovulgação)

Fomentando outras cadeias
A Positiva começou a ser desenhada em 2014, quando a designer Marcella Zambardino, de 33 anos, hoje sócia da empresa, passou a repensar seus hábitos. Marcella afirma que muitos dos produtos de limpeza clássicos têm substâncias corrosivas, com concentração de amônia ou, ainda, são derivados do petróleo, uma fonte não renovável.

- Além disso o petróleo é alergênico e de difícil degradação, demora para se decompor. Com esses produtos, as pessoas estão expostas a substâncias químicas superfortes e não sabem os riscos. No Brasil, há ainda uma cultura de misturar produtos o que pode provocar reações químicas -, salientou.

Em 2015, Marcella se uniu aos seus sócios Alex Seibel e Rafael Seibel, e no ano seguinte a empresa nasceu com a proposta de oferecer soluções ecológicas para limpeza, seja de ambientes residenciais ou comerciais.

Naquela época, a Positiva tinha no catálogo 14 produtos agregados em kits de tamanhos diferentes. A venda era feita em feiras de produtos orgânicos ou via e-commerce, até hoje o principal canal de comercialização. Aos poucos, a Positiva passou a vender os produtos avulsos. Mas foi em 2018 que houve o “boom” das vendas, e a empresa se consolidou, agregando mais dois sócios Leandro Menezes e Bianka Hoegarden. No ano passado, o empreendimento faturou R$ 5 milhões, e para este ano a expectativa de é atingir a casa dos R$ 10 milhões.

Hoje a empresa vende cerca de 27 mil itens por mês em 180 lojas físicas espalhadas pelo Brasil, incluindo várias redes de supermercados. Além de Nara, em Florianópolis, a Positiva conta com outros 11 pequenos e médios fornecedores no interior de São Paulo, na Paraíba e no norte de Minas Gerais. Juntos, no ano passado, eles venderam à Positiva cerca de R$ 2,3 milhões em mercadorias.

Embora os números sejam expressivos, Marcella explica que a empresa analisa seu sucesso sob outra ótica.

- Além do faturamento, é importante medir o impacto que estamos gerando. Quantas embalagens recicláveis estamos produzindo? Quanto de renda estamos gerando para pequenos produtores? Temos vários indicadores para medir que nossa empresa está sendo boa para o mundo -, calcula Marcella.

(Foto: Facebook / diovulgação)(Foto: Facebook / diovulgação)

Os carros-chefe são os produtos para lavar roupas (a embalagem de 5 litros custa R$ 230, e de a 1 litro R$ 50) e o multi-uso (5 litros concentrados saem a R$ 90 e 1 litro, a R$ 20). Marcella explica que embora os preços pareçam mais altos se comparados aos produtos convencionais, é preciso pensar que os itens são concentrados e quando diluídos vão render e custar mais barato proporcionalmente.

- Trabalhamos com produtos concentrados para evitar que as pessoas paguem por água, porque é hoje o que acontece, as pessoas pagam por água e perfume. Não inventamos ingredientes para fazer render o produto. Além do mais, o produto concentrado tem mais eficiência na limpeza -, completa.

Quatro anos depois de sua fundação, a Positiva agora tem como desafio ganhar escala na vida e nos lares de mais pessoas, para além do público que defende as causas ambientais. Para isso, a empresa vai ter de concorrer com empresas multinacionais consolidadas no mercado.

- As multinacionais estão entrando com mais produtos para concorrer com a gente. O consumidor está habituado a comprar produto de limpeza no mercado. Nosso desafio é saber como se diferenciar para não ficar com o público tão nichado. Queremos que o nosso produto ganhe escala para chegar para a maioria das pessoas -, detalha Marcella.

Neste ano, a Positiva vai lançar novos produtos e expandir a linha, hoje restrita à limpeza de ambientes.

-  Começamos questionando o que a gente consumia e criamos uma solução. Só com esse movimento coletivo é que vamos conseguir melhorar o planeta. Todas as coisas que estamos vivendo hoje no mundo vai trazer mais consciência para a gente. Por isso, nosso maior desafio é sair do nicho e ganhar escala, mostrar para o consumidor que nossos produtos são diferentes. Temos de pensar na cadeia inteira que fomentamos -, completou.


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