Agricultura, Cultura, Economia e Negócios, Entretenimento, Florianópolis - 15 Mar 2017 11:09

Mulheres fazem sucesso com bar no Sul da Ilha voltado para a cultura cervejeira

As empresárias Marina e Camila Portásio estão à frente do Pátio Biergarten
Por: Direto da Redação TSF
 
Mulheres fazem sucesso com bar no Sul da Ilha voltado para a cultura cervejeira (Foto: Divulgação)

As mulheres, aos poucos, têm conquistado espaço no mercado cervejeiro, seja como sommelières, professoras, produtoras, juízas de concursos de cerveja ou administradoras. No entanto, em 2017ainda se ouve que mulher não gosta e não entende de cerveja, que mesa de bar não é lugar para elas e, pasmem, vemos empresas desenvolvendo cervejas “femininas”.

O consumo de cerveja atualmente ainda é predominantemente masculino, assim como o mercado de trabalho cervejeiro. Mas, historicamente, as mulheres tinham papel fundamental na arte de produzir a bebida. Na antiguidade, esta era uma atividade exclusiva da mulher ainda quando era feita para o consumo doméstico. A cerveja só começou a ser produzida em grande escala tempos depois, pelos monges. Daí pra frente, o domínio feminino da produção da cerveja diminuiu quando passou a ser um negócio comercial de produção em grande escala, estimulando a presença masculina dentro das fábricas.

Hoje, com o mercado novamente em mutação, é cada vez mais expressivo o número de mulheres envolvidas em atividades totalmente ligadas à prática e cultura cervejeira. Em Florianópolis, as empresárias Marina e Camila Portásio fazem parte desse cenário. À frente da administração do Pátio Biergarten, bar que completa neste mês de março três meses de inauguração, elas contam como é atuar neste segmento, como elas enxergam o mercado cervejeiro no geral e seu posicionamento diante as questões de gênero, preconceito, empoderamento e machismo.

(Foto: Divulgação)(Foto: Divulgação)

O que as motivou a criar um bar desse estilo na parte Sul de Florianópolis?

Primeiramente o Sul: é a região que moramos e onde reconhecemos uma lacuna enorme no quesito entretenimento gastronômico. Depois de uma viagem da Marina à Alemanha, ficamos encantadas com o conceito do Biergarten, um local democrático, aberto, ventilado e voltado ao consumo de boas cervejas. Daí começamos uma busca de um ponto que se aproximasse daquele conceito ou onde este pudesse ser reproduzido de alguma maneira. Levamos a ideia para o escritório de arquitetura Blue, da Betina Chede, e chegamos no layout que nos agradou e que consideramos mais se aproximar do que queríamos.

Foi preciso dominar o assunto quando decidiram abrir uma empresa em um segmento considerado masculino. O que vocês fizeram para conhecer mais sobre o ramo?

Nos dias de hoje nada mais se faz amadoristicamente. Foram muitos meses de pesquisa teórica e prática. Livros, vídeos e muita conversa. Conhecer esse universo foi uma experiência muito legal. Quanto mais nos aprofundávamos mais nos apaixonávamos. Apesar de ser um universo tradicionalmente masculino, não foi difícil entrar. Tivemos sorte de contar com bons contatos e com a boa vontade de todos a quem procuramos.

Nossa estratégia foi a mais óbvia possível. Perguntar, sem nenhuma vergonha de demonstrar nosso desconhecimento. O fato de ambas as sócias já estarem ou estiveram envolvidas no setor gastronômico, foi um facilitador. Então o aprendizado mais difícil foi com relação ao universo cervejeiro.

(Foto: Divulgação)(Foto: Divulgação)

Sofreram algum tipo de resistência, desconfiança ou rejeição, já que para muitos as mulheres ainda são como um estranho no ninho nesse meio?

Diretamente não, mas claro que existe um discurso que coloca a mulher como consumidora de cervejas leves ou como dizem, mais femininas. Não aceitamos essa pecha nem compartilhamos esse preconceitos. Cerveja de mulher é a que ela gosta. Temos muitos consumidores do sexo masculino que adoram cervejas leves e outro tanto de feminino que não trocam o amargor de uma IPA o teor alcoólico de um Tripel pela suavidade de uma Weiss (de trigo). Entendemos que a mulher está absolutamente no mesmo pé de igualdade com o homem. Não importa o que o marketing cervejeiro quer fazer crer. Isso serve para criar nichos de consumo. Ditar o que vamos beber é nossa prerrogativa.

Como vocês enxergam a participação das mulheres na cultura cervejeira?

Incipiente, mas crescente. Existe um coletivo, Mulheres Cervejeiras, que congrega representantes de vários estados e que em agosto do ano passado lançou uma American Barley Wine no EAP em São Paulo. Uma cerveja de estilo que nada tem a ver com as referências delicadas e preconceituosas propaladas pelo mercado. Mais ainda, chegou ao mercado com a marca ELA que junta o pronome de gênero à sigla de “Empoderar, Libertar e Agir”. Ou seja, chegou dizendo ao que veio. Esse grupo, além de toda essa simbologia, doou o lucro da comercialização para entidades que cuidam e acolhem mulheres vítimas de violência. Sempre há um modo de empoderar, libertar e agir. Compactuamos totalmente com essa visão e atitude.

Qual a avaliação desse mercado tanto como em público, quanto aos empreendimentos? No geral, vocês acham que esse ponto cultural está mudando por aqui?

Estamos vivenciando um momento muito interessante. Somos elogiadas pelo empreendedorismo e pela coragem. Muitos ainda, quando nossos maridos estão presentes, direcionam o elogio à eles, mas sabemos a parte que nos pertence. Culturalmente talvez esteja mudando sim. Observamos aqui no Pátio Biergarten grupos de mulheres das mais variadas faixas etárias bebendo e se divertindo sozinhas. Isso nos engrandece e alegra. Mas não nos ilude. Sabemos que ainda é um pequeno ponto no horizonte. Sabemos que mulheres sozinhas em bares ensejam ideias distorcidas nas cabeças machistas. Nossa frequência é de um público de nível cultural mais elevado, fato que facilita e inibe o assédio, mas não impede. Já vimos acontecer, já tivemos que intervir.

Vocês concordam que o recente empoderamento feminino visto em outros cenários contribui para que mais mulheres assumam o comando de bares e cervejarias?

Claro, de bares e cervejarias, de ônibus, de aeronaves comerciais, de caminhões. Aos poucos, mais lentamente do que gostaríamos, a mulher vem se posicionando contra preconceitos. Protestando ou simplesmente assumindo posições notadamente consideradas masculinas. Há histórias aos montes na internet que comprovam esse empoderamento, assim como o preconceito.

O que vocês acham das propagandas publicitárias de cerveja? E das recentes cervejas lançadas especialmente para o público feminino?

A indústria e a publicidade cervejeira têm como objetivo criar nichos ou mesmo incentivar os já existentes para vender. Não estão preocupadas em formar opiniões críticas. Infelizmente. Achamos que é o caminho mais fácil. Mulher = fragilidade = cervejinha cor de rosa. Evocando a memória do poeta Mario Lago, “Amélia é que era mulher de verdade”. Talvez, e isso é inferência nossa, a Amélia nem bebesse. Porque senão não seria “mulher de verdade”. Essa referência musical é de 1942, ano em que foi gravada por Ataúlfo Alves, parceiro de Lago, que tentou em diversos depoimentos descaracterizar a simbologia de submissão. Pois, então, ainda hoje, a indústria e a propaganda cervejeira coloca a mulher do lado frágil ou do lado objeto. Um dia devem aprender e nós, mulheres, somos quem devem ensinar.

Para vocês, cerveja para cair no gosto das mulheres tem que ser frutada, leve, doce ou isso faz parte ainda do universo machista e estereotipado que o gênero feminino enfrenta?

Não, claro que não. Mulheres, até onde sabemos, têm a mesma quantidade de papilas gustativas dos homens, por que teriam que beber cervejas mais fraquinhas? Isso não se trata, logicamente, de biologia mas de semiologia. A mulher está sempre relacionada a coisas fracas, leves, carinhosas. Sempre idealizada pelos homens que criam no mundo publicitário. Isso eles querem, nos cabe vestir a fantasia ou nos rebelarmos contra ela.

Dos rótulos disponíveis no Pátio, quais vocês têm preferência?

Adoramos as IPAs. Das mais suaves às mais amargas. Mas também apreciamos as Weizen, as Wit. Enfim, gostamos de cerveja boa. Não importa se são potentes ou refrescantes. Cada dia, e isso vale para todos os gêneros, temos vontades diferentes. Um dia uma saladinha outro um Eisbein. Acreditamos na diversidade, inclusive de sabores.

(Foto: Divulgação)(Foto: Divulgação)


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